Em um lapso de distração, Deise sentiu que a cena diante de si era familiar.
Uma memória vaga ressurgiu: quatro anos atrás, usando como pretexto a busca por uma aventura amorosa, ela havia feito uma viagem furtiva a País Quirino para investigar o misterioso acidente da sua mãe.
E lá, ela também havia esbarrado com alguém que estava sendo espancado.
Contudo, não era uma menininha.
Era um homem.
Ele parecia ter mais ou menos a sua idade, mas estava com o rosto totalmente esfolado e desfigurado pelas pancadas.
O homem não revelou quem havia lhe dado a surra.
E ela também não perguntou.
No começo, o seu coração havia apenas amolecido; ela só queria oferecer um pouco de pomada para aliviar o inchaço e tratar os ferimentos.
Mas acabou levando um baita susto ao ver o rosto do rapaz.
Após quatro anos, ela já não conseguia recordar perfeitamente das suas feições.
No entanto, a marca de nascença horrenda e aterrorizante estampada no rosto dele continuava fresca na sua memória.
Aquela ocasião fora a primeira vez em que ela desenvolvera um medicamento para remover marcas de nascença.
As chances de sucesso eram de cinquenta por cento, e até hoje ela não fazia ideia se havia funcionado.
E mesmo que tivesse dado certo, Deise achava que, hoje em dia, seria completamente incapaz de reconhecer o rapaz.
Ela ainda lembrava que havia abrigado o homem no seu quarto alugado por alguns dias, chegando até a preparar macarrão com carne para ele.
Quanto mais a sua mente viajava ao passado, mais detalhes afloravam.
Ela também recordava ter lhe oferecido refrigerante sabor lichia, mas ele recusou, considerando bizarra a combinação de macarrão com carne e refrigerante de lichia.
Pensando bem agora, William parecia ser a única pessoa que compartilhava os mesmos gostos culinários que ela.
Mergulhada sem motivo naquelas memórias enevoadas de quatro anos atrás, Deise sentiu um calafrio percorrer a espinha.
Como ela tivera tanta coragem naquela época?
E se o cara fosse um criminoso, ou um psicopata, e tivesse aproveitado a chance para matá-la? O que seria dela?
Deise estremeceu dos pés à cabeça, concluindo que fora incrivelmente imprudente, mas extremamente sortuda.
— Tia...
Nisso, a voz lamentosa de Mariana a arrancou de seus devaneios.
— Eu... eu...
Embora não houvesse nenhuma grande perspectiva de que algo maravilhoso fosse acontecer por lá, era muito melhor do que chegar parecendo uma leitoa abatida.
Na hora da despedida, a garotinha acenou para Deise com os olhos cheios de lágrimas, e a voz embargada.
— Muito obrigada, tia... Muito obrigada...
Deise continuou acenando de volta, acompanhando Mariana com o olhar até a garota sumir pelos portões do jardim de infância.
Ela notara como a sua pomada havia sido uma poção mágica para Mariana, uma demonstração de pura e rara bondade.
Para Deise, no entanto, não passara de um simples gesto.
Deise não deu muita importância a esse breve contratempo.
E logo despachou da mente as lembranças do episódio similar ocorrido quatro anos antes.
Ao chegar ao centro de dados biológicos, Leandro já estava aguardando no portão para recebê-la.
Deise estacionou o carro e caminhou até lá, reduzindo a velocidade dos passos gradualmente.
Para a sua surpresa, Leandro não estava sozinho no portão.
Havia, na verdade, um grupo inteiro de pessoas de pé o acompanhando.

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