Deise sabia muito bem que Sylvia gostava de William.
No entanto, conhecendo os padrões de William, ela acreditava fielmente que ele jamais se interessaria por uma pessoa tão artificial e dissimulada como Sylvia.
Na mesa de Sylvia, o Dr. Costa esteve presente no começo, mas pouco depois ele se retirou, deixando apenas os dois jantando a sós.
Sylvia claramente havia se arrumado com esmero. Vestia um delicado vestido de renda cor-de-rosa, com maquiagem, penteado e acessórios cuidadosamente combinados, parecendo muito mais com alguém num encontro amoroso do que em uma reunião de negócios.
William vestia-se todo de preto, como de costume, destacando-se apenas as chamativas luvas brancas em suas mãos.
— Então está combinado. A partir de amanhã, o Sr. Branco já pode começar a trabalhar na sede da Bio Universo.
Sylvia entregou a papelada oficializada para ele, observando de forma cautelosa a sua expressão, esperando encontrar nos olhos dele qualquer resquício de gratidão por ela.
Contudo, os olhos de William pareciam cobertos por uma camada de gelo; além de uma frieza distante e apática, não havia absolutamente nada.
Sem saber o porquê, Sylvia sentiu um calafrio percorrer seu corpo e, instintivamente, abaixou a cabeça, evitando encará-lo.
O olhar de William era assustador, como se fosse capaz de perfurar sua alma e ler seus pensamentos.
— Sr. Branco, eu...
— Se não houver mais nada, já vou indo.
Ao ver William se levantar, ela se apressou em pará-lo em meio ao pânico.
— Espere um pouco...
Naquele exato momento, o celular dela caiu propositalmente no chão.
William se curvou e pegou o celular para Sylvia, mas a foto exibida na tela capturou instantaneamente a sua atenção.
Sylvia ergueu os cantos dos lábios discretamente.
— Aquela é uma foto que eu tirei da minha irmã.
Enquanto falava, tomou o celular das mãos dele.
— A bolsa que ela está usando é o mais novo modelo da Hermès. Custa mais de dois milhões! Foi o Palmiro quem deu para ela.
Só após escutar o nome de Palmiro que William levantou os olhos, revelando uma sutil mudança em seu semblante gélido.
Por dentro, Sylvia ria-se vitoriosa.
Como imaginado, ele se importava muito com aquilo.
— Eu acho que... a minha irmã pode reatar o casamento com o Palmiro em breve, senão não teria aceitado uma bolsa tão valiosa como aquela de presente.
— Afinal... minha irmã não é do tipo interesseira, não concorda, Sr. Branco?
Deise foi ajudá-lo a firmar o passo vacilante e instável, amaldiçoando-o mentalmente por ter coragem de encher a cara no meio de um encontro de negócios.
O apoiou por todo o percurso entre o restaurante de bufê até o salão principal do hotel. Quando estava prestes a largar sua mão, Nicolas repentinamente agarrou seu braço.
— Diretora Paiva, já que estamos num hotel, que tal nós subirmos para alugar um quarto?
Vendo-o fazer aquele papelão de bêbado, Deise puxou o braço e sacudiu a mão dele com violência.
— Diretor Franco, o senhor já bebeu demais.
— O que te importa se eu bebi demais ou não... Durma comigo e eu dou o estande principal da exposição para a sua Saúde Paiva Ltda... e aquele grande contrato com o governo... Hic! Se você não der o devido valor... eu tiro a qualificação de participação da sua empresa, fazendo todos vocês servirem de chacota no mercado!
Sendo ameaçada por um Nicolas absurdamente bêbado, Deise cruzou os braços contra o peito, achando a cena no mínimo engraçada.
Embora a exposição de sábado fosse o evento anual mais importante da Medicina Tradicional do País Alvorália, aos olhos de Deise não era algo impossível de viver sem.
Ao vê-la lhe dar as costas e partir, exibindo extremo desprezo, Nicolas encheu-se de indignação.
A sua raiva não era apenas devido àquela bela mulher lhe escapar pelas mãos, mas, acima de tudo, tratava-se de seu orgulho ferido e humilhado; sentiu seu poder diminuído de modo descarado.
— Pare exatamente onde você está!
Nicolas alcançou-a tropeçando nos próprios pés e segurou seu ombro com agressividade.

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