Quem estava ao volante ainda era Linda, a secretária de cabelos cacheados presos em um coque, vestida com trajes escuros de trabalho e usando óculos de meia armação apoiados no nariz.
E o passageiro no banco de trás continuava sendo Xavier Viana, com seu cabelo branco e um rosto de feições ainda infantis.
— Diretor Viana... As joias que o senhor deu àquela mulher custaram mais de um milhão. Acha mesmo que vale a pena?
— Quem decide o que vale ou não vale a pena é você?
Diante da resposta cortante de Xavier, Linda pediu desculpas imediatamente:
— Sinto muito, Diretor Viana. Falei demais.
Xavier espreguiçou-se sem a mínima preocupação, estalando levemente os nós pontiagudos de seus dedos longos.
Sua mão estava vazia.
Ele havia perdido a faca borboleta.
E o celular também.
Surgiram de forma muito natural em sua mente as imagens do momento no bar da Susana, quando havia sido encurralado e humilhado em conjunto por Deise e William. E Xavier, em vez de ficar furioso, apenas riu.
— A filha da Eliana Barros, além de ter um pouco de beleza, também é muito interessante. E ela arrumou um namorado que, além de ser mais bonito que eu, tem uma presença ainda mais intimidadora...
Ao chegar nessa parte, as palavras de Xavier o fizeram cair na gargalhada.
— O único porém é que ele não parece ser tão jovem quanto eu...
Dizendo isso, Xavier apenas se esparramou confortavelmente sobre os assentos traseiros do carro e soltou um bocejo.
— Pelo visto, a vinda à Cidade Nova valeu bastante. Terei uma ótima maneira de matar meu tempo livre.
Linda olhou de relance através do espelho retrovisor para Xavier deitado no banco de trás.
Ela conhecia bem seu chefe.
Quanto mais desafiador algo fosse, mais aguçava o interesse dele.
— Então, o que o Diretor Viana planeja fazer a seguir?
Ao ouvir a pergunta de Linda, Xavier, acomodado no banco de trás, fechou os olhos como se fosse tirar um cochilo.
Não era possível distinguir pelo tom de voz se ele respondia com seriedade ou apenas brincava.
— Hum... Amanhã vou começar comprando uma casa por aqui, transferir o Registro Geral e, então... fundar uma empresa!
Xavier disse tudo com uma leveza natural, mas, ao escutar, Linda não conseguiu evitar franzir a testa por trás de seus óculos.
— Diretor Viana, se a intenção do senhor for apenas descobrir até onde aquela mulher sabe dos incidentes do passado, não há necessidade de um investimento tão alto a ponto de abrir uma empresa nova!
— Está me ensinando o que fazer de novo?
Xavier escancarou os olhos num relance.
Eram os gemidos de uma mulher completamente entregue ao prazer.
Algum tempo se passou até que a porta de trás do carro finalmente se abrisse e Linda saísse do interior.
Ela parecia um pouco abalada, com os trajes completamente bagunçados.
Contudo, sobrou-lhe pouco tempo para endireitar suas roupas e aparência, já que precisava retomar a direção imediatamente.
O imponente Maybach iniciou mais uma vez seu movimento.
Sentada no banco do motorista e com as mãos fincadas no volante, Linda continuava com as bochechas coradas, cujo rubor ainda se negava a desaparecer.
Enquanto isso, no banco de trás, Xavier permanecia totalmente sem expressão. Nem a menor faísca de luxúria se podia notar sobre seu rosto de pele pálida.
Encarando o teto estrelado do carro de luxo, Xavier soltou um bocejo tomado de profundo tédio.
— Ai, que tédio!
Na parte da frente do carro, as mãos de Linda apertaram o volante de forma automática, com as juntas dos dedos visivelmente embranquecidas.
Na manhã seguinte.
País Bráulia.
Com o celular grudado nas mãos, Palmiro Marques permanecia com os olhos presos no GPS, na tentativa de encontrar sua direção.

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