Deise interrompeu os seus passos e deu meia volta para encarar Nilda frente a frente.
As órbitas abertas de Nilda pareciam explodir em chamas.
— Como você teve coragem de me trair?! Como pode ter a cara de pau de...
— Nilda...
Deise interveio abruptamente e cortou a fala de Nilda, com a voz tão glacial que foi impossível Nilda evitar um forte arrepio de tremor.
A postura rígida e perspicaz de Deise perante Nilda sugeria que a mulher podia ler todas as tramas com clareza, provocando nela um terror sufocante.
— Você superestima excessivamente as suas capacidades, e me subestima demais.
Deise exalou uma zombaria indiferente.
— Acaso pensou que, somente porque abordou uma garotinha aleatória na rua para me entregar aquele documento recheado de verdades misturadas com mentiras, eu não conseguiria rastrear as pistas até você?
Com a revelação cortante de Deise, traços disfarçados de culpa irromperam quase instantaneamente pelo rosto de Nilda.
— Se você precisa colocar a culpa de um erro em alguma coisa, culpe o seu carro, que é luxuoso demais.
O Rolls-Royce Phantom não era, para muitas famílias nobres, a opção de transporte cotidiano.
Deise era detentora de uma memória espetacular. Na primeira vez em que vira, ainda que casualmente, o Rolls-Royce da Família Pinto, a placa do carro gravara em sua mente.
A princípio, ter recebido, justamente no País X, aquele amontoado de documentos relatando tanto o projeto científico como os detalhes da morte de sua mãe, ocorrida quatro anos antes, revelou-se nada mais que uma coincidência incrivelmente inacreditável.
Deise dificilmente teria deixado de suspeitar que aquilo resultava da armação deliberada de alguém.
Mais tarde, depois de Fagner Sequeira entregar a ela os vídeos das câmeras de segurança, ela flagrou acidentalmente que, enquanto a garotinha desconhecida aproximara-se para entregar-lhe as pastas, um chamativo carro de luxo se movimentou no final do beco, afastando-se dali.
Tratava-se, evidentemente, do mais recente modelo de um Rolls-Royce Phantom.
Exatamente o carro do qual Nilda fazia uso contínuo.
Ela não se lembraria da placa erroneamente de modo algum.

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