Eles tentaram resistir, mas a luta era vã. Tentar nadar contra a correnteza do ódio público só resultaria em afogamento.
Começaram a reunir evidências para provar sua inocência, mas, como retaliação, Cícero e Amélia sofreram violências brutais.
Supostos cidadãos de bem os encurralaram em um beco e os espancaram. Eles sabiam perfeitamente quem estava por trás do ataque.
O rosto de Cícero ficou tão deformado que mal se via um pedaço de pele intacta. Sua mãe aplicava antisséptico tentando achar um espaço limpo, mas as lágrimas não paravam de rolar, num choro copioso e inconsolável.
Cícero ficou em silêncio por um longo tempo, querendo dizer que estava bem, que aguentaria. Mas descobriu que os chutes haviam lesionado suas cordas vocais. Ele perdeu a voz. Passou meses sem conseguir falar uma palavra sequer.
No mundo em que os fortes devoram os fracos, a falta de poder ou influência os transformava em carne sobre a tábua de corte. Caíram em um abismo de desespero repetidas vezes.
O céu escureceu com nuvens densas, e uma chuva de granizo impiedosa começou a cair. As pedras batiam no chão com violência. Qualquer guarda-chuva seria perfurado. E não havia sinal de que a tempestade passaria.
Por fim, o casal encontrou a saída mais rápida para cessar a tragédia.
A confissão e o suicídio.
Dessa forma, os filhos deixariam de ser alvos.
A história finalmente acabaria. Aquela foi a única solução lógica que suas mentes atormentadas encontraram. Se houvesse qualquer esperança, qualquer mínima chance de vitória, jamais teriam abandonado as crianças.
Mas não havia. Gritar para o céu ou rezar para a terra de nada adiantou.
Aquela massa de tecidos severamente carbonizados, os fios de cabelo torrados e os anéis de ouro — a primeira joia que haviam comprado com o primeiro salário —, derretidos a ponto de sobrar apenas uma pepita irreconhecível... Foi tudo o que restou para Cícero identificar os pais.
Reconheceu a mãe através das tentativas desesperadas de preservar a lembrança dos cabelos que ela tratava com água de arroz. E reconheceu o pai pelo amuleto deformado e enegrecido pelo fogo, um talismã que havia buscado no templo para a proteção de toda a família e do qual jamais se separava.


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