Henrique nunca havia feito aquele tipo de coisa.
Pegou o livro, abriu na primeira página e leu rigidamente as palavras ali escritas, como se estivesse fazendo um relatório no departamento de polícia.
Eloy estava ansioso no começo, mas depois de ouvir por um tempo, rolou para ficar de barriga para cima e finalmente não aguentou mais.
— Você não conta tão bem quanto o Gabriel.
Os dedos de Henrique, prontos para virar a página, pararam na borda. Ele fechou o livro e o colocou sobre a mesa de cabeceira.
— E como o Gabriel contava? — perguntou humildemente.
Eloy pensou um pouco, fazendo orelhinhas de coelho com as mãos: — Ele imitava o uivo do lobo mau e fingia o choro do coelhinho.
Henrique mergulhou em pensamentos.
Ele realmente não sabia fazer isso.
Acostumado com as forças especiais, farto de ver espadas e armas de fogo, e lutas de vida ou morte, habituado a repassar situações de forma breve e enérgica pelo rádio transmissor; ele não era capaz de soltar aquela melodia tão adocicada de infância na própria garganta.
Porém, isso não impediu que o seu espírito competitivo se despertasse.
Ele procurou rapidamente na cabeça algo que pudesse atrair um menino dessa idade.
Então ele perguntou: — Que tal se o papai te contar as histórias de quando capturava os bandidos maus? Quer escutar?
Os olhos de Eloy brilharam: — Quero!
E assim Henrique começou a narrar.
Falou dos pântanos no seio das florestas chuvosas, de quando a tropa usava cores no próprio rosto a fim de se esconder como o camaleão entre o mato alto, sem emitir movimentos no corpo. Falou da manha dos criminosos ao prender o carregamento ilícito por debaixo dos calçados, e de como o bando cooperativo unia estratégias para arrombar portas e descer dos céus com apenas cordas delgadas na operação policial.
Nenhuma mágica dos contos de fadas ou animais falantes surgiram ali, apenas experiências reais cheias de perigo, filtradas da parte sangrenta e contadas num tom brando.
Eloy ouvia, totalmente cativado.
— O vilão tinha uma arma na mão, então o papai ficou escondido atrás da porta. — Henrique disse em voz baixa.
Eloy piscou os olhos e perguntou: — Mas você ficou com medo?
A voz de Henrique parou.
Naquela época ele era sozinho, com segredos pesados e aversão por si mesmo reprimidos no coração; a cada missão, ele estava preparado para não voltar.
A vida e a morte eram para ele apenas um resultado, não havia muito o que valorizar no processo.
Mas agora as coisas eram diferentes.
— Antes eu não tinha, agora eu tenho.
Eloy ficou um pouco confuso: — Por que você tem medo agora? Você não é o policial mais forte?
Henrique olhou nos olhos do filho.

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