Isabela Moretti não pensava em nada além do presente quando entrou na livraria.
Era sábado. O céu estava limpo, e a cidade parecia menos estranha do que nas primeiras semanas. Ela aprendera a gostar daquele bairro — das ruas estreitas, do café na esquina, da sensação de que ninguém a observava como parte de uma história antiga.
Livrarias tinham se tornado um refúgio. Não exigiam conversa, não pediam explicações, não cobravam versões. Bastava escolher um livro e ficar em silêncio.
Ela caminhou entre as estantes com calma, passando os dedos pelas lombadas, lendo títulos sem realmente decidir nada. Gostava desse luxo: não ter pressa.
Foi quando ouviu a voz.
— Se você estiver procurando algo leve, não recomendo esse.
Isabela virou o rosto devagar.
Henrique Torres estava a poucos passos dela, segurando dois livros, expressão tranquila, como se aquele encontro fosse apenas mais um detalhe comum do dia.
Por um segundo, ela pensou em sorrir e seguir adiante. Não por rejeição — por cautela. A vida tinha acabado de se reorganizar, e ela aprendera a não correr.
Mas algo no jeito dele não pressionava.
— Anotado — respondeu, devolvendo o olhar. — E se eu estiver procurando algo honesto?
— Aí esse é perfeito — disse ele, erguendo levemente o livro que ela segurava. — Honesto às vezes dói, mas não engana.
Ela sorriu. Um sorriso pequeno, real.
— Você frequenta muito esse lugar? — perguntou, mais por curiosidade do que por interesse.
— De vez em quando — respondeu. — É um bom lugar para lembrar que o mundo não gira só em torno do trabalho.
Isabela assentiu.
— Concordo.
Eles caminharam juntos até o caixa sem combinar. Não havia expectativa no ar, nem tensão disfarçada. Apenas dois adultos compartilhando o mesmo espaço com naturalidade.
— Você mora por aqui? — ele perguntou, casual.
— Moro — respondeu ela. — Ainda estou conhecendo a cidade.
— Então você ainda está naquela fase em que tudo parece provisório — comentou ele. — É uma fase curiosa.
Isabela pensou por um instante.
— Talvez — disse. — Ou talvez eu esteja escolhendo com mais cuidado o que quero que fique.
Henrique a observou com atenção respeitosa. Não havia insistência no olhar. Havia interesse contido.
— Quer um café? — perguntou. — Sem compromisso. Se não quiser, tudo bem.
Ela hesitou por segundos que pareceram maiores do que eram.
Não sentiu aquele frio antigo no estômago.

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