Obviamente, a polícia não engoliria apenas a versão unilateral de Hortência.
Vendo que Hortência e Xenia estavam prestes a recomeçar a briga, o policial Caio acenou com a mão, ordenando que seus colegas levassem as duas à força para a delegacia.
Glaucia, Dália e os demais as seguiram para registrar o boletim de ocorrência.
Durante todo o trajeto até a delegacia, a discussão entre Hortência e Xenia não cessou um segundo sequer.
Hortência era muito mais articulada e venenosa que Xenia. Ela insistia furiosamente que Xenia sentia inveja dela e a havia incriminado de propósito. Xenia, sem conseguir superar a retórica manipuladora da outra, via sua raiva atingir o limite.
Especialmente com tantos policiais ao redor, o pânico de Xenia se misturou a uma coragem repentina e inexplicável. No momento em que desceram da viatura, ela avançou abruptamente sobre Hortência, cravando as unhas diretamente no rosto da rival.
— Sua vagabunda desgraçada! Foi você quem me procurou pedindo ajuda, e agora quer me sujar para eu levar a culpa no seu lugar? Eu vou acabar com a sua raça! — Xenia gritou.
O ataque foi rápido demais. Hortência soltou um grito estridente ao receber o golpe em cheio.
Como as unhas da mulher não eram cortadas nem lixadas, abriram um rasgo longo e profundo no rosto de Hortência.
Quando a dor aguda finalmente a atingiu, Hortência levou a mão ao rosto em um reflexo atrasado. Seus dedos ficaram imediatamente cobertos de sangue. Ela soltou outro grito aterrorizante.
— Você teve a audácia de bater no meu rosto?! Sua barraqueira imunda! Eu vou acabar com você!
Normalmente, na frente de Tadeu, Hortência sempre forçava uma fragilidade calculada, mas agora a máscara havia caído completamente. Ela arregaçou as mangas e se atracou com Xenia no chão.
Sendo magra e frágil, Hortência não era páreo para o porte físico robusto de Xenia. Após poucos segundos, ela já estava em desvantagem, ganhando novos arranhões ensanguentados pelo rosto.
Desistindo de revidar, ela começou a cobrir o rosto com as mãos em desespero, sem esquecer de gritar para a pequena Eulália, que assistia a tudo paralisada:
— O que você está esperando?! Vem logo me ajudar!
Ao ver o rosto da mãe coberto de sangue e marcas de unhas, Eulália finalmente saiu do choque e tentou puxar Xenia para longe.
Mas se nem Hortência era páreo para a mulher, que força teria uma criança de menos de seis anos?
Assim que se aproximou, Eulália foi atingida por um empurrão acidental do cotovelo de Xenia. A menina cambaleou, caiu sentada no chão e começou a chorar aos berros.
A entrada da delegacia virou um verdadeiro escândalo, parecendo uma feira livre em dia de confusão, tudo graças ao espetáculo patético das duas.
A polícia raramente presenciava barracos de tal nível na zona nobre da cidade. Caio tentou separar a briga, mas foi empurrado para trás. Como nenhuma das duas era uma criminosa de alta periculosidade, os policiais não podiam usar força bruta extrema, limitando-se a tentar separá-las com ordens.
— Ah, corta essa. Tá fingindo o quê? Realmente acha que é alguma donzela de sangue azul? Se aquela família rica que você tanto fala aceitou casar com você, é prova de que eles não ligam para rosto. Porque se ligassem, com tantas garotas lindas no mundo, por que olhariam para a sua cara?
Cada palavra era a mais pura verdade, mas o tom cortante fez o corpo inteiro de Hortência tremer de humilhação.
Antes que pudessem se atracar novamente, Caio agiu rápido e ordenou que fossem levadas para salas separadas dentro da delegacia.
Testemunhando todo aquele teatro de horrores com seus próprios olhos, Dália sentiu que grande parte de sua raiva havia se dissipado. Ou melhor, ver a estupidez e a feiura da inimiga expostas de forma tão patética a deixou sem saber como canalizar o resto da sua fúria.
Após prestarem seus depoimentos de forma breve e direta, Glaucia e Dália saíram da delegacia e deram de cara com Napoleão, que chegava às pressas.
Assim que cruzou o olhar com Glaucia, Napoleão franziu a testa, expressando sua irritação.
— O que você está fazendo aqui de novo?
— Que coincidência, eu também queria perguntar: por que a família Pires é como uma praga que não nos deixa em paz? O Sr. Pires não apenas falhou em educar o filho, mas também se recusa a educar a neta? — Glaucia ironizou, com uma postura inabalável e gélida.
O rosto de Napoleão ficou lívido de raiva. Ele lançou um olhar mortal para Glaucia, ignorou a ofensa e passou direto por ela, fixando os olhos em Hortência e na pequena Eulália, que acabavam de sair pela porta.

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