Ao ver o rosto de Hortência, que parecia ter sido arranhado por um gato selvagem, Napoleão quase teve um infarto. Ele explodiu de raiva:
— Você tem alguma noção de que está prestes a se casar com o Tadeu?! Sua aparência já não era das melhores para o nosso padrão, e agora você me destrói o rosto desse jeito. Você quer envergonhar o nome da família Pires de propósito?
Hortência se sentiu ainda mais injustiçada. Com os olhos vermelhos, ela olhou para Napoleão e choramingou:
— Pai, eu não fiz de propósito... Eu nunca imaginei que... eu...
— O que não falta é coisa que você 'nunca imaginou', sua inútil. Para que serve essa sua cabeça? De que me adianta ter você por perto?! — Napoleão não fez a menor questão de poupar a dignidade dela na frente de todos.
Hortência já não era jovem. Só Deus sabia o quanto custou para ele abrir mão de seu orgulho e permitir que Tadeu se casasse com ela.
O acordo inicial era que Hortência passasse esse período fazendo tratamentos estéticos intensivos para que, no mínimo, não parecesse mais velha que a mãe de Tadeu no dia do casamento.
E agora o resultado era esse. Não só os tratamentos não deram resultado, como o rosto dela estava destruído. Faltava menos de um mês para a cerimônia de luxo, e seria praticamente impossível que aquelas cicatrizes sumissem a tempo.
O casamento nem havia começado e Napoleão já sentia uma vergonha que o impedia de erguer a cabeça diante da alta sociedade.
Hortência fungou, puxando o ar entre soluços vitimistas, e em seguida olhou com ódio para Xenia.
— Pai, a culpa é toda dessa mulher vulgar. Se não fosse por ela, meu rosto não estaria arruinado, eu...
Xenia estava apavorada e, obviamente, não se atreveria a enfrentar Napoleão Pires. Imediatamente, ela lançou um olhar de súplica aos policiais presentes.
— Policiais, vocês já investigaram tudo. Foi ela quem tentou me incriminar. Ela me acusou injustamente e eu perdi a cabeça por causa da raiva. Eu sei que a família Pires é poderosa e influente, mas vocês precisam me proteger. Não deixem que eles mandem me calar.
Sem muito estudo e acostumada a falar diretamente, Xenia não percebeu que suas palavras fizeram Napoleão e sua família parecerem chefes de uma facção criminosa.
Napoleão quase desmaiou de raiva, mas engoliu o orgulho e explicou com impaciência contida:
— Já fui informado do que aconteceu. De fato, isso não tem muito a ver com você. Pode ir embora. Quanto ao seu salário pelo tempo que trabalhou para a família Pires, mandarei depositarem integralmente na sua conta.
Ao ouvir isso, Xenia soltou um longo e pesado suspiro de alívio.
— O senhor é muito generoso, chefe. Diferente dessa Hortência, que primeiro prometeu me arrumar um emprego na mansão e depois quis me fazer de bode expiatório. Que nojo, eu...
— Chega, Xenia! — Hortência gritou em pânico, interrompendo-a para evitar que continuasse a difamá-la antes de ir embora.
Napoleão lançou um olhar de repulsa e impaciência para Xenia, que finalmente foi embora.
Assim que saíram da delegacia, Napoleão não conseguiu mais se segurar e descarregou toda a sua fúria sobre Hortência.
A família Pires já estava atolada em crises de imagem. Se um novo processo trouxesse à tona o incidente em que Hortência, trabalhando como babá, queimou uma criança de propósito, isso desencadearia um desastre midiático.
Napoleão decidiu que o melhor seria um acordo financeiro fora dos tribunais.
Vitória também lançou um olhar de absoluto desprezo para Hortência. Antes de fazer a ligação, ela olhou para Eulália, hesitou por um instante, e sugeriu em tom cauteloso:
— Amor... por que não mandamos a menina para longe? Afinal, essa criança não tem o sangue da família Pires. Mantê-la aqui não nos traz benefício algum, só serve para atrair problemas.
Napoleão assentiu friamente. Ele havia pensado em deixar Hortência resolver essa situação, mas ao olhar para o rosto inchado e desfigurado dela, abandonou a ideia instantaneamente. Ele se voltou para Vitória.
— Deixo isso nas suas mãos também. Cuide de tudo.
Napoleão já não confiava mais em Hortência para nada. Mesmo sem tentar, ele tinha certeza absoluta de que ela arruinaria qualquer plano que tocasse.
Vitória concordou na mesma hora e se afastou para ligar para Glaucia.
Napoleão então se dirigiu a Hortência com um tom final e autoritário.
— A partir de hoje, você está proibida de sair de casa. Fique quieta, faça companhia ao Tadeu e tente engravidar o mais rápido possível.

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