— Por você?
— Sim. Independentemente dos acordos verbais que existiam antes, ela ainda é, tecnicamente, a sua noiva. Sob certo ponto de vista, eu sou a intrusa nessa história.
O coração de Afonso apertou.
— Você não é. E... eu não quero que se sinta injustiçada.
— Não sinto.
Ela entrelaçou seus dedos nos dele. Seu sorriso transbordava certeza.
— Lembre-se sempre de uma coisa: você nunca foi uma escolha baseada em prós e contras, mas sim uma decisão que tomei sabendo perfeitamente de todas as dificuldades.
Então, o que era um pequeno sacrifício?
O que significava um pouco mais de espera?
...
O carro parou em frente ao condomínio.
Gualter olhou para o portão enferrujado, que sequer tinha guarita de segurança, e franziu o cenho.
— É aqui que você mora?
Até podia ser chamado de condomínio, mas o estado de miséria e abandono era gritante.
Morando há tanto tempo em Rio Belo, Gualter não fazia ideia de que um lugar tão miserável pudesse existir no meio daquela metrópole deslumbrante.
E ficava no fim do mundo. Longe de tudo.
Considerando o trânsito e os solavancos dos ônibus, deveria levar quase duas horas só para chegar à empresa.
Ida e volta, eram quatro horas perdidas por dia só no trajeto.
Como ela conseguia manter aquele ritmo insano sem nunca chegar atrasada e ainda se voluntariar para fazer horas extras?
Gualter finalmente compreendeu por que ela se recusara tantas vezes a deixá-lo dar uma carona.
Quitéria apressou-se em justificar, envergonhada:
— Só parece caindo aos pedaços por fora. O apartamento por dentro é ótimo! É muito espaçoso. E o dono é tão bondoso que cobrou quase nada pelo aluguel, por isso escolhi ficar aqui.
Gualter abriu a boca para falar algo, mas engoliu as palavras.
Esticou o braço, pegou um guarda-chuva no banco de trás e o entregou.
— Pega. Pode ir.
Quitéria hesitou.
— Eu posso só ir correndo. Fica com ele.
Gualter enfiou o guarda-chuva na mão dela, irritado.
Naquele exato milésimo de segundo, a tela acendeu.
Identificador de chamadas: "Mãe".
Quase como se estivesse sob algum transe maligno, Gualter atendeu a ligação.
Uma voz histérica e esganiçada explodiu do outro lado da linha:
— Sua desgraçada inútil! Você não prometeu que ia mandar vinte mil para o seu irmão?! Cadê o dinheiro, que até agora não caiu na conta?! Acha que já criou asas e pode nos deixar morrer de fome, é isso?!
Os olhos de Gualter escureceram no mesmo instante. A temperatura no carro pareceu despencar abaixo de zero.
— Se eu souber que vocês voltaram a pedir um único centavo para ela, vou fazer questão de mostrar ao filhinho de vocês o quão infernal a vida real pode ser.
A mulher do outro lado emudeceu por intermináveis segundos.
— Quem é você?! Esse celular é da minha filha!
— Sou o tipo de pessoa que pode acabar com a raça de vocês. Já passei pela prisão e não me importaria de voltar para lá, caso seja necessário. Gravem bem as minhas palavras.
Aterrorizada, a mulher não ousou soltar mais um pio e desligou o telefone na mesma hora.
Gualter não soube explicar o motivo, mas seu humor afundou de vez.
Uma sensação asfixiante de ódio contra aquela fragilidade inútil tomou conta dele.
Sem hesitar, ele se atirou contra a chuva torrencial, correndo furiosamente atrás da silhueta que se afastava.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Emprestar o Meu Marido pra Ter um Bebê
O livro termina nesse capitulo??...
Cadê as atualizações?...
Não vai mais atualizar os capitulos?...
Como consigo os capítulos completos?...
como consigo ler todos os capitulos...