— Rosa! — Fernando exclamou, desesperado.
Rosângela olhou para ele, com o olhar absolutamente firme.
— Fernando, fique tranquilo. Confie em mim, nada vai acontecer.
— Ligue para a polícia e mande rastrearem a localização do meu celular. Eles podem me seguir discretamente. Eu vou lá ganhar tempo e segurá-la.
Fernando encarou a teimosia inabalável nos olhos dela e soube que não conseguiria impedi-la.
Ele soltou um suspiro frustrado.
— Tudo bem. Mas me prometa que vai tomar cuidado.
Rosângela assentiu com a cabeça, virou-se e saiu da delegacia a passos largos.
O prédio abandonado na Zona Leste ficava em um antigo pólo industrial desativado. O matagal tomava conta de tudo, e o lugar era completamente deserto.
Rosângela pegou um táxi até as proximidades e seguiu a pé por entre os escombros.
O céu já estava escurecendo. Os últimos raios de sol pintavam o horizonte de um vermelho profundo, quase como a cor de sangue espirrado.
Pisando em pedras soltas e ervas daninhas, Rosângela caminhou em direção ao prédio mais alto e inacabado do complexo.
O interior do edifício era escuro como breu. Apenas uma luz fraca e pálida infiltrava-se pelas frestas das escadas.
Rosângela subiu lance por lance. O eco de seus passos ressoava sombrio pelo corredor vazio.
Finalmente, ela empurrou a pesada porta de ferro que dava para o terraço.
Eva Ribeiro estava lá. De pé, bem na beirada do telhado, de costas para a porta.
O vento forte açoitava seus cabelos longos e as roupas largas que usava, fazendo-a parecer um fantasma prestes a despencar no abismo.
— Você veio. — A voz de Eva soou sem que ela se virasse, distorcida pela ventania.
Rosângela caminhou até parar a uma distância segura dela.
— Eu vim.
Eva finalmente se virou.
Aquele rosto outrora impecável e refinado estava completamente destruído. Olheiras profundas e avermelhadas marcavam os olhos, os lábios estavam rachados e o corpo tão magro que mal parecia humano.
Mas seus olhos brilhavam. Um brilho perturbador, histérico e enlouquecido.
— Rosângela Nunes... — ela abriu um sorriso grotesco. — Você finalmente caiu nas minhas mãos.

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