POV CARLA
—Você está chorando? —me perguntou minha melhor amiga, Lia, assim que me sentei ao lado dela no ônibus escolar.
—Não. Entrou alguma coisa no meu olho. —Enxuguei os olhos, tentando com todas as forças segurar um soluço.
Lia franziu a testa.
—Ele não apareceu de novo.
Já não dava mais pra esconder o que eu sentia. Lia me conhecia muito bem. Eu estava arrasada, e as lágrimas que vinha segurando desde que saí do cinema começaram a cair como chuva.
—Ele é um idiota. Achei que fosse um cara legal e encantador. Já não gosto mais dele pra você, minha avaliação dele caiu pra 90%! Você não devia ter esperado por ele hoje. Já te deu bolo três vezes... Eu te avisei, Carla, mas você não me ouviu. Seu coração é burro. Você não devia escutar ele. —Lia continuou tagarelando sem parar até a gente chegar ao ponto do ônibus. —Sabe de uma coisa? O Ismael é um cara legal. Não entendo por que você não gosta dele.
—Nem eu entendo —respondi, me levantando com a mochila pesada nos braços.
—Talvez você devesse dar uma chance pra ele —sugeriu Lia.
Isso me fez parar e pensar. Talvez ela tivesse razão. Seria a única maneira de tirar o Wade do meu sistema. Eu precisava abrir meu coração e arrancar aquele garoto bonito dos olhos brilhantes de dentro dele.
Pensei no Ismael. Era um cara bonito, carinhoso e romântico. Lembrei das cartas de amor e dos poemas que ele me deu e que li com pressa. Talvez devesse reler quando chegasse em casa. Mas aí me lembrei das frases que ele usava pra flertar, e me deu vergonha. Ele tinha as cantadas mais cafonas e nada originais. Tipo semana passada, quando eu estava na fila da cantina e ele apareceu atrás de mim e perguntou:
—Você é do Tennessee?
—Não. Por quê? —respondi.
—Porque você é a única teen que eu quero ver —disse, piscando pra mim.
Não soube como reagir. Senti minhas bochechas pegarem fogo. Eu fiquei com vergonha.
Ismael era meu colega desde a escola primária e continuamos no mesmo colégio. Junto com Wade, Leonidas e os outros garotos da vizinhança.
Ismael me dava bola desde o sétimo ano. Eu nunca dei corda. Disse com sinceridade que éramos muito jovens pra namorar. Além disso, sempre o vi só como amigo. Ele parava de me perseguir quando arrumava uma namorada. Mas bastava ficar solteiro de novo que voltava a me cortejar. Virou rotina.
Cheguei em casa e fui direto pro porão. Como a Ângela ficou com o meu quarto, me mudei pro porão, levando minhas coisas e as da minha mãe. Virou meu refúgio.
Ali tinha tudo que eu queria. Além das minhas roupas, sapatos e coisas da escola, tinha um armário cheio de romances, a coleção da minha mãe. Também tinha um quebra-cabeça, uma caixa de som Bluetooth, um notebook, fones de ouvido e minha velha câmera Canon. Tudo isso me mantinha ocupada quando não tinha nada pra fazer em casa.
Fui direto pro meu quarto, no canto do porão. Larguei minha mochila vinho na escrivaninha e desabei na cama, exausta.
Estava emocionalmente esgotada. Não sou de chorar fácil. Aprendi a ser forte quando minha mãe morreu. Mas hoje não deu pra segurar. Eu estava muito triste e decepcionada... de coração partido. O que o Wade fez, me deixar plantada três vezes, me fez sentir tão pequena, como se eu não fosse ninguém. Doeu muito... porque era verdade.
Fiquei olhando pro filtro dos sonhos pendurado no teto, bem acima da minha cabeça. Minha mãe que me deu. Disse que ele me protegeria de pesadelos e sonhos ruins. Mas por que a realidade parece um pesadelo do qual não consigo acordar? Perdi minha mãe. Perdi meu pai. E agora estou sozinha.
Me sinto sozinha. Me sinto muito sozinha agora. Queria que minha mãe estivesse aqui pra me consolar. Lembrei que semana que vem é o aniversário dela e vou visitar seu túmulo. Ah... sinto tanta falta dela. Sinto falta das palavras reconfortantes que diziam que tudo ia ficar bem... dos abraços, dos beijos e dos carinhos até eu adormecer. É triste não ter mais ninguém aqui por mim.
*
POV WADE
—O que está acontecendo, Wade? Você ainda não decorou o seu papel. Não veio aos ensaios com a Carla — A expressão da senhorita Paterson estava carregada de raiva. Olhei para Carla, que estava sentada à minha frente. Ela tinha o rosto inteiro coberto pelo roteiro. Do meu ângulo, não conseguia ver sua expressão.
—Mas, senhorita... —tentei argumentar.
—Estou tentando te ajudar a melhorar suas notas, mas você não está colaborando. Sua mãe até veio falar comigo sobre isso.
—Sério?
—Sim. Ela esteve aqui outro dia. Conversamos sobre suas notas e como você poderia recuperá-las. Ela ficou muito grata por você participar da peça — balançou a cabeça, decepcionada. —Diga à sua mãe que não podemos mais contar com você.
—O quê? —Sobre o que ela está falando? Só porque ainda não decorei o roteiro já estou fora? Pelo amor de Deus, eu nem tinha ensaiado com a Carla ainda. A senhorita Paterson era impossível. Queria dizer a ela que planejava decorar o roteiro durante as férias. Minha tia Lillian podia me ajudar.
—Não me deixa outra escolha a não ser te substituir. Você não está se esforçando o suficiente.

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