POV WADE
— Ela é mais bonita pessoalmente — disse Erickson depois de deixar Carla em casa. — Tímida e, obviamente, uma boa garota.
— Ela é mesmo, e ainda tem uma personalidade incrível — respondi.
Mostrei ao Erickson a foto da Carla que tinha no meu celular. Tinha tirado no nosso primeiro dia de ensaio. Em segredo. Não consegui me controlar. Ela estava tão linda lendo o roteiro naquele momento.
— Ela é sua namorada?
Demorei alguns segundos para responder, assimilando a pergunta.
— Não. É só uma amiga.
— Que pena. Vocês formam um casal bonito.
A ideia de mim e da Carla juntos me fez sorrir. Eu me sentiria no céu abraçando ela.
Cheguei em casa esperando ver o Ismael. Enquanto a Carla e eu estávamos na pista de patinação, ele me mandou uma mensagem dizendo que ia devolver o drone.
— Onde você estava? — perguntou Ismael assim que saí do carro.
— Resolvi uma coisa pro papai. Negócios de kickboxing.
— Sério? — A expressão do Ismael virou zombeteira. — Ah, me poupe. Você está vestido como se fosse impressionar uma garota.
Balancei a cabeça e entrei em casa.
— Acho que você está saindo com alguém. Em segredo — disse Ismael, me seguindo.
— Não é verdade — neguei. Nem conseguia olhar pra ele.
— Quem é? — insistiu. — É alguém da nossa escola?
— Deixa isso pra lá.
— Tá bom, tudo bem. De qualquer jeito, obrigado por isso — disse, me entregando meu drone.
— Sempre às ordens, irmão.
— Comprei o meu hoje. Tava rolando uma promoção no Rockefeller Center. Trinta por cento de desconto! Muito bom.
O que o Ismael disse me deixou surpreso. Meu coração começou a bater mais rápido.
— Você estava hoje no Rockefeller Center?
— Sim. Com a minha família.
Carla e eu quase encontramos o Ismael. Nem queria imaginar o que teria acontecido se ele tivesse nos visto juntos.
Senti uma culpa súbita. Eu precisava contar sobre a Carla. Ele tinha que saber. Além disso, eu não suportava a ideia de trair meu melhor amigo.
Era muito difícil continuar guardando segredo, sem ninguém para conversar sobre o que sentia por ela. Reprimir meus sentimentos estava acabando comigo. Mal conseguia dormir à noite.
— Ismael, preciso te contar uma coisa — falei quando estávamos na sala.
— O que foi?
— Eu...
— Oi, Ismael! O Leonidas tá aí? — disse Esmeralda atrás de mim. Ela descia as escadas correndo, usando uns shorts curtíssimos.
— Não — respondeu Ismael —. Ele está doente. Tá com febre e resfriado.
— Ahhh... Que pena. Você acha que eu deveria ir visitá-lo e levar uma sopinha de frango? — perguntou Esmeralda.
Olhei pra ela, confuso.
— Por que você faria isso? Você não é mãe dele.
— Só estou preocupada, ué. Qual o problema nisso?
— Nenhum. Mas essa roupa não tá adequada. Sobe e troca. Tá frio, estamos no inverno — respondi seco.
— Ai, que chato! Isso é moda — disse Esmeralda, jogando o cabelo pra trás e subindo as escadas correndo.
— Ela é corajosa — riu Ismael depois que ela sumiu.
Mamãe saiu da cozinha carregando uma caixa.
— Wade, a Martha passou aqui. Trouxe essas bolachas pra você. Nem sabia que ela fazia bolachas.
Dei de ombros.
— Ela disse que vai te ligar hoje à noite.
De novo, não. Ela não desistia. Não entendia que o nosso namoro tinha acabado há um ano. Precisava seguir em frente.
— Valeu, mãe —. Peguei a caixa de bolachas. Quando ela saiu, entreguei a caixa pro Ismael. — Você gosta das bolachas da Martha, né?
— Gosto... — disse Ismael, meio desconfiado.
— Pode ficar com elas.
— Valeu —. Abriu a caixa e enfiou uma bolacha inteira na boca. — Nossa... Tá muito doce. Mas tá boa.
— Vamos lá, comprei um jogo novo. Quer ver? — convidei. Ele também amava videogames, como eu. E eu ainda precisava contar sobre a Carla.
— Não dá. Meus parentes vêm jantar. Tenho que ir pra casa.
Olhei o relógio. Quase seis da tarde.
— Preciso te contar uma coisa.
— O que é? Fala logo — disse, olhando pro relógio.
Agora fiquei em dúvida. A gente podia conversar depois. Talvez amanhã.

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