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Faltam 30 dias para eu ir embora — Sr. Gabriel perdeu o controle romance Capítulo 1075

Deu mais alguns passos, devagar, como se cada movimento pesasse toneladas.

Parou diante da porta do quarto de hóspedes, o mesmo onde Beatriz dormira durante quase dois anos.

Mas, depois que Vitória apareceu, ele a expulsou dali, mandando-a para o cômodo menor, o que antes servia de depósito.

Levantou o olhar.

A porta do banheiro estava entreaberta, o interior mergulhado em silêncio.

E, como um golpe, a lembrança veio.

Beatriz, sozinha, ajoelhada no chão frio, lavando com água gelada as queimaduras que ele próprio provocara pela segunda vez.

Os olhos vermelhos, o rosto molhado de lágrimas, e a voz partida, cheia de dor, gritando para que ele sumisse da vida dela.

A cena o atravessou como uma lâmina.

O peito se contraiu, latejando.

Ele sentiu, com clareza cruel, que não passava de um monstro.

Por fim, chegou ao quarto menor, o antigo depósito.

O mesmo quarto onde Beatriz dormira antes de ir embora.

O mesmo quarto onde, agora, ele dormia.

Fechou a porta.

Encostou as costas na madeira fria.

Os olhos se fecharam, e o corpo perdeu toda a força.

Deslizou devagar até o chão, sentando-se ali, sem resistência, como se todo o peso do passado o empurrasse para baixo.

Aquele cômodo o torturava.

Cada canto, cada sombra, trazia de volta o eco das feridas que ele causara a Beatriz.

Gabriel pensara inúmeras vezes em vender o apartamento, mas nunca teve coragem.

Mesmo sem ela ali, aquele lugar ainda guardava os rastros de Beatriz: os gestos, o perfume, o riso distante.

Toda vez que voltava, tinha a ilusão de que ela ainda estava por perto.

Essas lembranças o matavam um pouco a cada noite.

Eram como lâminas lentas, fazendo-o sangrar em silêncio, entre pesadelos e arrependimentos.

Mas, no fundo, ele achava que merecia.

Era o castigo justo.

Talvez, de alguma forma, fosse sua penitência, um jeito de carregar no próprio corpo as dores que um dia fizera Beatriz sentir.

O sol já se punha, e o quarto mergulhava em sombras.

A luz do entardecer tingia o ar de um tom alaranjado e triste.

Gabriel ficou ali, imóvel, afundado em tristeza, com o coração latejando.

Cada batida era uma lembrança dolorosa, cada suspiro, uma confissão muda.

E ali estava: um caderno azul, simples, de capa gasta, deitado em silêncio, esperando por ele.

Gabriel ficou paralisado por um instante.

Reconheceu o caderno azul, era o diário que ele próprio havia tirado das coisas de Vitória, o diário de Beatriz, escrito na época do colégio.

Lembrava-se de ter lido apenas as duas primeiras páginas antes de fechá-lo às pressas.

Não teve coragem de continuar.

Aquelas páginas guardavam os segredos de uma garota e, pior ainda, os sentimentos dela por outro homem.

Naquele tempo, Gabriel não quis saber.

Não quis encarar a crueldade de descobrir quem fora o primeiro amor de Beatriz.

Ele sempre sentira uma inveja irracional, um ciúme cego de qualquer um que tivesse sido amado por ela, mesmo que hoje já não existisse ligação alguma entre eles.

E agora, era igual.

Instintivamente, moveu a mão para fechar a gaveta, mas o gesto ficou suspenso no ar.

Por fim, agarrou o diário, o peito ardendo de ciúme, e, num impulso, atirou o caderno no lixo.

Depois, continuou vasculhando as gavetas, procurando por alguma garrafinha esquecida, mas não havia nada.

Minutos se passaram, o silêncio da casa pesava.

Então, Gabriel se aproximou do lixo, inclinou-se devagar e estendeu a mão.

Tirou o diário de volta.

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