Meu tempo em Londres não foi fácil. Esconder minha verdadeira natureza era quase impossível para mim. Mas eu estava entre humanos. Eles desconfiavam da nossa existência, mas não tinham provas. Não podia simplesmente deixar Diana se revelar. Meu sonho era ir para o Reino, mas Anthony sempre dizia que jamais poderíamos voltar, pois, se Atlas descobrisse que eu estava viva, faria de tudo para me matar... Assim como matou minha mãe.
Eu era grata a Anthony por me salvar e criar, mas nossa relação nunca foi das melhores. As coisas entre nós pioraram nos últimos dez anos, quando, sem querer, ouvi uma conversa dele ao telefone com Lúcia. Descobri coisas que mexeram comigo, que me destruíram por dentro. Mas Diana me ajudou nesse processo. Quando tudo aconteceu, ela havia acabado de emergir.
Foi em um dia qualquer, saindo do trabalho, que um cheiro me atingiu. Diana ficou ensandecida. Era uma mistura de alegria com tristeza, medo com ânimo. A sensação de estar perto de algo... ou alguém, que estava conectado comigo, mas que eu não conhecia. Quando olhei em direção à origem daquele cheiro, meu coração quase parou. Era como olhar para minha mãe... Mas em sua versão masculina.
Um homem loiro, traços firmes, olhos iguais aos meus e cabelos dourados que brilhavam sob o sol do fim de tarde. Quando cheguei em casa, peguei as fotos da minha mãe, tentando me livrar daquela sensação, dessa ligação que eu não entendia. Foi então que o reconheci. Ele era mais novo na foto, mas não restavam dúvidas. Era o mesmo homem. Atrás da foto, lia-se: “Lexa e Logan com o titio Ajax”.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto naquele dia. Se Ajax estava ali... Será que Logan também estava? O que eu faria se o encontrasse? O que eu diria? Como ele reagiria?
Durante meses, segui Ajax, sempre a uma distância, sem coragem de me aproximar. O que me impedia de falar com ele? Medo, dúvida, uma sensação estranha de que talvez eu não fosse bem-vinda. E o pior de tudo era não saber o que ele sentia, se ainda se lembrava de mim... Ou se sequer se importaria.
Percebi que ele estava sozinho, meu irmão não estava por perto. Mas, como dar o primeiro passo? Como, finalmente, me aproximar de alguém que provavelmente não sabia nem que eu existia?
Até que Anthony descobriu. Ele me proibiu de chegar perto de Ajax. E com isso, minha esperança de criar coragem e falar com ele, ou de encontrar Logan se despedaçou.
Mas, há quase dois meses, Lúcia disse que estava na hora de Anthony voltar e tomar o que era dele. Eu não entendia o que ela queria dizer com isso, mas foi o suficiente para que ele se decidisse a finalmente retornar ao Reino.
Desde que chegamos de Londres, Anthony tem me mantido presa. Raramente posso colocar o focinho na janela. Muitas vezes, preciso deixar Diana assumir o controle só para sentir o ar puro lá fora.
Em um dos meus dias de corrida, vi um carro parado. Megan conversava com alguém. Meu coração parou. O rapaz era minha cara.
Era como me olhar no espelho.
Me aproximei, ouvindo as últimas palavras de Megan:
— Antes mesmo de aceitá-lo como companheiro, não acha?
Diana rosnou diante da ameaça daquela garota irritante, mas logo sua loba emergiu, e o rapaz foi embora.
Depois daquele dia, um vazio tomou conta de mim. Uma necessidade absurda de voltar a vê-lo. Mas Anthony ficou cada vez mais rígido, proibindo até minhas corridas. Eu não sabia quanto tempo mais eu conseguiria suportar aquilo. O que aconteceria se eu não o visse de novo?
No dia em que os Lycans nos atacaram, Alfa Lucas não nos deixou ajudar. Eu me escondi na sacada de seu quarto. Precisava ver. Precisava saber o que estava acontecendo.
Quando tudo acabou, eles voltaram para o quarto, e eu me escondi, rezando à Deusa para que não me achassem.
Foi então que o vi.
O rapaz do outro dia.
A Luna do Alfa Lucas estava gravemente ferida. Eu precisava sair dali. Com cuidado, fui me esgueirando... Até ouvir Megan dizer o nome dele:
— Logan.
Minha respiração travou.
Diana choramingava em minha mente.
Era ele.
Eu sabia.
Ele era meu irmão.
Mas ele não sabia que eu existia. Não podia simplesmente sair de trás da cortina e dizer: “Prazer, sou Lexa, sua irmã”. A ideia de me revelar assim me parecia... impossível. Não sabia como ele reagiria.
A porta se abriu.
Todos estavam distraídos.
Todos, menos Diana.
Foi nesse momento que entrou uma garota. Devia ter seus dezoito anos, cabelos negros e olhos azuis. Ao seu lado, havia... A visão dos céus.
O homem que a acompanhava tinha cabelos castanhos bem cortados, olhos cor de avelã, e uma presença imponente. Diferente de qualquer humano, diferente até mesmo de qualquer lobo que eu já havia conhecido.
Foi aí que Diana sussurrou em minha mente:
— Companheiro.
O que aquilo significava?
Ele parecia enxergar minha alma. Seus olhos não se desviavam dos meus. Eu sentia como se estivesse sendo lida, descoberta.
A garota saiu, e Logan foi atrás.
Aproveitei o momento e fugi pela sacada, caminhando pelo parapeito até alcançar o quarto ao lado. Assim que entrei pela janela...
Ele estava lá.
Me esperando.
Diana não parava de gritar em minha mente.
"Companheiro."
— O que você faz aqui? — perguntei, minha voz saindo trêmula. O que estava acontecendo comigo?
— Você não sente?
Franzi a testa para a pergunta dele.
O que eu deveria sentir?
— Diana fica dizendo companheiro, mas... Eu não sei o que isso significa.
Ele sorriu.
Um sorriso que pareceu amolecer minhas pernas.
Que sensações eram essas que ele causava em mim?
— Somos companheiros, destinados pela Deusa da Lua a ficarmos juntos.
Enquanto dizia essas palavras, ele se aproximava. Meu coração começou a bater descontroladamente, minha respiração acelerou, minhas mãos ficaram úmidas, e um turbilhão de borboletas dançava no meu estômago.
— Eu não entendo... O que você está fazendo comigo? Está deixando Diana agitada. — Minha voz saiu hesitante, tomada por uma confusão que eu não sabia explicar.
Quando ele parou à minha frente, ergueu a mão e tocou meu rosto. O calor do seu toque despertou algo dentro de mim, algo que eu não queria sentir. No impulso, bati em sua mão e me afastei bruscamente.
— Quem autorizou você a me tocar? Nunca mais faça isso. — Minha voz saiu firme, mas dentro de mim tudo estava um caos.
Diana choramingava em minha mente, e eu não entendia por quê. Quando voltei meu olhar para ele, vi dor em seus olhos cor de avelã. Um tipo de dor que fez meu peito apertar.
Por que ele ficou assim? Como se minha atitude tivesse o machucado?
— Lexa. — A voz de Anthony me chamou ao longe.
Pisquei algumas vezes, tentando me recompor, e me virei para o rapaz à minha frente.
— Meu padrasto está me chamando. — Ele continuou me olhando, sem se mover. Mas eu precisava cortar aquilo ali. — Ele me proibiu de sair... e de conversar com estranhos. É melhor você ir embora.
Ele assentiu lentamente, mas em vez de sair pela porta, caminhou até a sacada.
— Aí é a sacada. É alto! Como você vai...?
Antes que eu terminasse a frase, ele me olhou com um meio sorriso.
— Somos lobos, Lexa. Não se esqueça disso. — Então, antes de pular, acrescentou: — Eu vou voltar. Em breve, volto para te buscar.
Meu peito se apertou, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele deu um último passo.
— A propósito... Meu nome é Gabriel.
E então ele saltou.
Meu instinto foi gritar, mas quando corri para a beirada, vi que ele havia caído com graça, sem um único arranhão. Ele ergueu o rosto e me lançou outro daqueles sorrisos antes de se juntar a um homem encostado em um carro.
Fiquei ali, observando enquanto o veículo partia, sentindo o coração martelar em meu peito.
Volto para te buscar.
O que ele quis dizer com isso?
Já se passaram dias desde o ataque dos Lycans. Logan nunca mais apareceu, e isso me entristecia mais do que eu queria admitir. Mas Gabriel... Gabriel também não voltou, e essa ausência me machucava de uma forma que eu sequer compreendia.
Tentei buscar respostas sobre o que significava ser companheiros, mas Anthony nunca me permitiu aprender sobre a vida dos lobos, sobre nossas verdadeiras origens. Ele sempre me dizia o básico, repetindo a mesma frase: "Quanto menos souber, mais segura estará."
Lúcia apareceu algumas vezes, mas nunca veio até o quarto me visitar. Essa casa era confusa... Ao mesmo tempo que me fazia sentir acolhida, me deixava desamparada. Olhava pela janela e via jovens da minha idade — alguns até mais novos — vivendo, saindo, rindo. E eu... sempre trancada.
Daqui a um mês faço aniversário. Tenho 28 anos, mas, na maior parte do tempo, me sinto uma criança. Durante os anos, experimentei sensações estranhas, sentimentos que não pareciam meus. Lembro que um professor uma vez mencionou em aula que gêmeos compartilham emoções. Às vezes, me perguntava se era isso. Se essas emoções não eram minhas... só podiam ser de Logan.
Estava deitada em meu quarto, encarando o teto. Anthony saiu dizendo que tinha assuntos a resolver e me proibiu de sair. Nem mesmo para comer — alguém traria minhas refeições. Isso estava ficando ridículo. Ele estava cada vez mais controlador e, nos últimos dias, Diana parecia mais inquieta do que nunca.
Na verdade, desde que pisamos no Reino, algo dentro de nós mudou. Como se esse lugar despertasse algo que sempre esteve adormecido.
Foi então que ouvi passos na sacada.
Meu coração disparou, e antes que eu conseguisse me conter, a palavra escapou dos meus lábios:
— Companheiro!
E então, ele surgiu.
Mais lindo do que da primeira vez que o vi.
— Gabriel... — sussurrei.
Ele avançou um passo, e eu me sentei rapidamente na cama. Mas ele não se aproximou de imediato. Ficou parado ao pé dela, me observando. Como se esperasse por um sinal, um convite para continuar.
— O que está fazendo aqui? — Minha voz saiu surpresa, mas o brilho nos olhos dele me dizia que a felicidade de o ver estava estampada em minhas feições.
E aquele meio sorriso — o mesmo que mexia com minhas estruturas — estava ali, desenhado nos lábios dele.
— Eu disse que voltaria. — Seu tom era sério. Mas um pensamento me tomou: como ele poderia me tirar daqui? Para onde iríamos? E eu nem sabia se queria ir... Precisava aguentar mais um pouco para encontrar Logan.
— Posso te levar até ele. — A voz de Gabriel interrompeu meus pensamentos.
— O que você disse? — Por um instante, parecia que ele tinha lido minha mente. Então, ele riu, e aquele som aqueceu meu coração. Era gostoso de ouvir. Diana ronronava em minha mente.
— Lexa, por sermos companheiros, conseguimos compartilhar emoções e... — Ele parou de falar, mas, de repente, sua voz ecoou dentro da minha cabeça:
— ...pensamentos.
Sua voz era suave e me causou arrepios da nuca até os pés. Fechei os olhos por um instante, aproveitando aquela sensação. Quando os abri, ele estava parado bem à minha frente. Gabriel se sentou lentamente, sem desviar os olhos dos meus, nem por um segundo. Com delicadeza, afastou uma mecha de cabelo que caía sobre meu rosto.
Foi nesse momento que me lembrei: meu cabelo devia estar horrível. Eu mal saía do quarto, quase nunca o penteava. Gabriel sorriu e passou o polegar suavemente pelo meu rosto antes de dizer:
— Você está linda. Na verdade, nem que quisesse conseguiria ficar horrível.
Senti meu rosto esquentar com o elogio. Eu não estava acostumada com isso. Anthony nunca me deixou ter amigos, muito menos namorados.
— Nunca vou conseguir esconder meus pensamentos de você. — Minha voz saiu num sussurro.
— Bem, se for seu desejo, posso te ensinar como. — Ele retirou a mão do meu rosto e a colocou sobre as minhas, que tremiam como folhas ao vento.
— Mas, para ser sincero, adoraria partilhar tudo com você.
Algo novo surgiu em minha mente, como um filme. Meio confuso no início, mas logo compreendi...
— Seus pensamentos? — perguntei, curiosa. Ele assentiu.
Meu rosto esquentou novamente, pois neles só havia... eu.
Nos últimos dois dias, Gabriel vinha me ver sempre que podia. Ele me contou que era um Lycan e explicou mais sobre a sua espécie. Me ajudava a entender melhor as coisas que aconteciam comigo. Mas eu ainda não estava pronta para contar toda a minha história a ele, mesmo sabendo que, de certa forma, meus pensamentos já eram dele. Essa conversa levaria tempo.
— Preciso voltar. Isabella precisa de mim. Mas eu volto, prometo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Filha da Lua: Entre Lobos e Alfas