Aquela frase soou muito estranha, ainda mais aliada à expressão de triunfo no rosto dela. Júlia começou a desconfiar: será que isso tinha alguma coisa a ver com ela?
Antes que pudesse refletir melhor, ouviu passos às suas costas, seguidos pela voz de Lucas: — O que aconteceu?
Júlia ainda nem abrira a boca quando Arthur se antecipou e começou a reclamar, apontando para ela: — Papai, ela tá me maltratando! Ela queria me bater agora mesmo! Buááá, me defende, rápido, castiga essa mulher velha!
Enquanto falava, forçou duas lágrimas, um contraste extremo com a brutalidade de quando batia em Bolinha. Se não tivesse visto com os próprios olhos, Júlia não acreditaria que uma criança pudesse encenar com tamanha perfeição.
Mas Lucas claramente acreditou; ou talvez não tenha acreditado, apenas não confiava nela instintivamente.
— Peça desculpas ao Arthur.
Ao ouvir isso, Júlia achou engraçado. Sem perguntar os motivos, sem distinguir o certo do errado, mandava-a pedir desculpas assim, de forma arbitrária? O favoritismo dele era realmente extremo.
Ela olhou friamente para Lucas, sem se desculpar, sem dizer nada, e simplesmente foi embora com Bolinha nos braços.
Atrás dela, o choro de Arthur e os consolos de Valentina soavam como um amargo sarcasmo.
Durante todo o caminho de volta, Bolinha não parava de tremer em seus braços, e, por mais que Júlia o confortasse, não adiantava.
Ao chegarem à clínica veterinária, o médico apenas balançou a cabeça. Comentou que, em todos os seus anos de profissão, nunca tinha visto um cãozinho com ferimentos tão graves. Além dos hematomas e ossos quebrados, o pior era o estado mental e o coração enfraquecido. Após fazer todos os procedimentos necessários, o médico disse a Júlia que havia feito o seu melhor, mas que o resto ficava nas mãos do destino.
Ver Bolinha, que era tão cheio de vida, virar aquilo partiu o coração de Júlia. Era impossível não sentir ódio. Contudo, sabia que parte da culpa era sua. Se o tivesse levado consigo, nada daquilo teria acontecido.
Apesar de tudo, o que ela podia fazer agora era tratá-lo cada vez melhor nos dias que viriam.
Depois de ajeitar Bolinha, Júlia planejou dar uma passada no Grupo Campos. Embora já tivesse pedido as contas, a sua volta repentina poderia causar problemas em relação à frequência no trabalho.
Fazia três anos que ela não ia ao prédio do Grupo Campos. Estar em frente a ele novamente era como viver outra vida.
Antes de ir para Porto Belo, Júlia havia feito estágio ali. Por causa de sua beleza, muita gente no Grupo Campos a conhecia. Então, assim que pisou no prédio, várias pessoas a reconheceram e, ao seu redor, podia-se ouvir alguns cochichos constantes.
— Não é a Júlia? Como ela ficou assim? Lembro que ela era bem magrinha, como foi engordar tanto?
— E ouvi dizer que a aparência nem é o ponto forte da Diretora Campos, e sim a sua competência. Dizem que ela se formou em bioengenharia de ponta em Auroria, tem doutorado e, ainda na faculdade, já tinha várias patentes, além de uma infinidade de prêmios internacionais.
...
Seguindo o som das vozes, Júlia viu uma figura alta e esbelta entrar no prédio, usando as últimas peças de grife, carregando uma bolsa de couro de crocodilo. Era Valentina Campos.
Ao passar pelos outros funcionários, ela mantinha sempre um sorriso no rosto, vez ou outra cumprimentando-os. Porém, ao cruzar com o olhar de Júlia, o sorriso desapareceu.
Júlia não deu muita atenção a ela, apenas lançou um olhar indiferente e, assim que o elevador chegou, subiu diretamente para o escritório do RH.
No caminho, ela já havia marcado com o RH com antecedência, então já estavam à sua espera.
A profissional de RH ainda não sabia que ela havia pedido demissão, então apenas informou a Júlia sobre a penalidade pelo seu retorno não autorizado. De acordo com as normas da empresa, um mês de salário seria descontado e o bônus de fim de ano seria cancelado.
Ao ouvir isso, Júlia não pôde deixar de franzir a testa. Imaginava que haveria uma punição, mas não que seria tão severa. Além disso, ela nunca havia visto tal regra no regulamento da empresa.

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