A cabeça de Bolinha havia sido esmagada por Sofia, precisaram raspar o pelo, dar pontos e cobrir com curativos.
Aquela pergunta do homem, no mínimo, carregava um alto grau de sarcasmo e ironia.
Clara soltou uma risada fraca.
— Se eu disser que foi uma queda, o senhor acredita?
— Eu tenho motivos razoáveis para suspeitar que você maltrata animais. Eu tenho o número de uma ONG de proteção animal aqui...
O homem parecia falar sério. Ele tirou o celular do bolso e começou a digitar com os dedos pálidos.
No banco do motorista, Henrique escutava tudo com as orelhas atentas, incapaz de afastar a sensação de horror que o dominava.
Se o presidente desse uma paulada num cachorro passando na rua, ele acreditaria.
Mas o presidente ligando para uma ONG de proteção animal? Que piada.
E quem foi o homem que, no mês passado no clube de caça, arrancou a cabeça de um coelhinho com um único tiro, então?
Mas a bela moça ao lado claramente caiu na brincadeira.
No desespero, Clara se inclinou e agarrou a manga do paletó de Felipe.
— Não, não, não! Eu juro que não bati no Bolinha. Sr. Felipe, acredite em mim. Olhe bem para o meu estado. Existe agressor que fica numa situação mais miserável que o cachorro apanhando? Não, né?
Ela realmente estava em um estado muito pior do que Bolinha.
O ferimento na cabeça de Bolinha pelo menos havia sido tratado. A testa dela ainda exibia o corte aberto com sangue coagulado, a bochecha direita carregava a marca nítida de uma mão, e as calças estavam rasgadas no joelho, revelando uma pele esfolada e manchada de sangue.
O olhar de Felipe percorreu o corpo dela mais uma vez e, por fim, pousou na mão de Clara, que estava segurando firmemente a manga de seu terno sob medida.
Clara foi rápida e recolheu a mão em um piscar de olhos.
Mas os dedos brancos e delicados da mulher haviam amassado o tecido rígido e impecável do paletó, e a ação rápida pareceu como se uma pata de gatinho tivesse lhe dado um arranhão leve e provocante.
Ele ergueu o olhar, e a dúvida em seus olhos não havia diminuído.
— As aparências enganam.
Sem saída, Clara resolveu ser franca.
— Tudo bem, eu tive um conflito em casa, o Bolinha apanhou da minha cunhada.
Os olhos escuros de Felipe tornaram-se mais frios, e a mão de Henrique deu um solavanco no volante.
Mãe do céu, a mulher era casada!
Ele sentiu que acabara de descobrir um segredo absurdo.
O carro deu uma guinada fora de controle, e Clara, pega de surpresa, foi arremessada contra o vidro da janela.
Felipe estendeu o braço, segurou o pulso dela e a puxou de volta, lançando um olhar cortante para o banco da frente.
— Está com falta de cálcio?
Henrique engoliu em seco, tentando esconder o pavor.
— É, sim! Vou comprar umas vitaminas assim que chegar em casa. Me desculpe por isso, ahn... Senhora?
Ele pensou que, como um assistente competente, era seu dever lembrar o presidente de que a mulher ao lado era casada.
Clara achou o clima estranho, mas como já estava no meio do processo de divórcio de Samuel e antes adorava ser chamada de Sra. Santos, ouvir o título "Senhora" agora soava apenas como uma ironia cruel.

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