Clara abaixou rapidamente os olhos, mas ainda sentia o olhar do homem recaindo sobre seu rosto com peso quase físico.
Ela voltou a levantar o olhar.
— Só queria saber se você gostou da comida.
Só então Felipe desviou os olhos, mas teve a sensação de que ela não estava dizendo a verdade.
O homem enrolou o macarrão nos hashis, prestes a comer, quando o celular de Clara tocou.
Ao pegá-lo, ela viu que era uma chamada de sua avó da Cidade R, e um sorriso iluminou seus olhos.
Ela estava prestes a atender, mas lembrou-se de algo e fez um gesto de "por favor, faça silêncio" para Felipe.
Felipe assentiu e só então Clara atendeu, caminhando até a grande janela panorâmica.
— Boa noite, vó! Já voltou do passeio?
Aquele era o horário em que a avó costumava caminhar após o jantar.
— Clara, querida. Já comeu o macarrão? A avó deseja que a nossa Clara tenha paz todos os anos, alegria todos os dias e que todos os seus desejos se realizem.
Quando Clara voltou para a família Borges, a data de seu aniversário foi alterada para o calendário lunar. Ela não havia contado isso para a avó.
A avó sempre se lembrava de que hoje era o seu verdadeiro aniversário.
Essa era uma parente de verdade, alguém que se importava com ela.
— Obrigada, vó. É claro que eu comi o macarrão, não se preocupe.
— E o bolo, já comeu? Onde está o Samuel? Ele está aí do seu lado?
— Sim, nós tivemos um jantar à luz de velas fora, estamos voltando para casa. Ele está dirigindo, então não pode falar com a senhora agora, mas mandou um abraço.
Clara não havia falado sobre o divórcio com a avó, afinal, a avó também tinha visto Samuel crescer.
Saber no que Samuel havia se transformado deixaria a avó ainda mais triste e desolada do que ela mesma. A idosa já tinha a saúde frágil e estava tão longe; Clara não queria que ela sofresse ou se preocupasse.
Ela planejava, depois de concluir o divórcio e antes de deixar a Cidade Litoral, voltar à cidade natal para fazer companhia à idosa e conversar sobre tudo com calma.
— Que bom, que bom... Ah, a avó mandou um dinheiro de presente de aniversário pelo WhatsApp. A avó teve que pedir para a Cacau, a netinha da Sônia, ensinar por um tempão até aprender. Não se esqueça de aceitar o dinheiro, a Cacau disse que, se você não aceitar, vai voltar para mim...
A ponta do nariz de Clara ardeu.
— Vó... eu entendi!
A idosa foi uma mulher dura a vida inteira e se recusava a aceitar a pensão que ela lhe dava. Clara precisou insistir muito para que ela aceitasse pelo menos uma cuidadora.
A avó já vivia de forma modesta, mas ainda assim havia guardado dinheiro para mandar de presente de aniversário para ela.
Com medo de que a neta recusasse, a idosa reforçou que ela tinha que pegar o dinheiro e logo desligou.
Clara abriu o WhatsApp, aceitou a transferência e enviou à avó a foto que havia tirado quando comemorou o aniversário no calendário lunar.
Quando ela voltou a se sentar à mesa, percebeu que Felipe ainda não havia começado a comer e comentou, surpresa:
— Sr. Felipe, não precisava me esperar, o macarrão vai ficar empapado e perder o sabor.

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