Improvável romance Capítulo 9

|KAYRA|

Ryan Foster com certeza irá arrancar meu fígado com seu bisturi afiado, e comê-lo em um prato com os dizeres pintados em letras garrafais: aqui jaz uma grande ex médica talentosa, porém muito burra.

Tenho plena convicção de que é isso o que provavelmente acontecerá comigo, enquanto realizamos o longo caminho que leva ao departamento mais tenebroso que existe neste hospital, e que no caso é onde ele trabalha como chefe: o departamento de obstetrícia.

Não me leve a mal, não tenho nada contra as lindas criancinhas que vêm ao mundo através de suas mãos hábeis. Elas por si só são umas gracinhas de se admirar, de longe obviamente, mas só de pensar em todo o sofrimento que aquelas mulheres inchadas, estressadas e cheias de hormônios descontrolados vivem durante o período de gravidez, longos nove meses, eu me recuso veementemente a passar pelo mesmo processo doloroso.

Deus me livre e guarde de que tal coisa semelhante venha a acontecer comigo algum dia!

E é por isso que eu nem gosto de chegar perto de Foster ou de seu departamento, vai que isso pega apenas de olhar. É o que sempre digo como brincadeira para todos os seus colegas de trabalho que se acabam de rir das palhaçadas que falo a torto e a direito. Eles já conhecem a fama de que vivo e prezo pela minha amada liberdade mais do que tudo. E é por essa razão que não desejo me prender a nada e nem ninguém. A nenhuma responsabilidade que exija mais da minha atenção ou um esforço maior da minha parte.

Eu já disse e repito: meu útero nem coça de vontade. Ele simplesmente se sente muito confortável por chorar ao final de cada ciclo durante todos os doze meses do ano regularmente. E que isso se perpetue por muitos e muitos anos ainda pela frente!

Veja bem, sei que ser médico obstétrico é uma profissão admirável que merece reconhecimento e respeito, mesmo que eu não tenha pensado dessa forma inicialmente quando nos conhecemos a primeira vez, eu e Ryan, durante um conflito bastante tenso, no qual disputávamos como dois cães ferozes por um osso. O osso na ocasião era o último centro cirúrgico disponível para realizar um procedimento naquela época.

É claro que Foster ganhou na disputa de força de braço comigo, afinal de contas, a ordem e prioridade do hospital para se utilizar o espaço são claras, quem tem maior risco ou perigo ganha, e a vida da paciente e de seu bebê que estava prestes a nascer, quase passando da hora, ganharam.

Ryan Foster e todos os que estavam presentes no dia desse embate épico entre nós dois, e que se recordam do fato, fazem piadas acerca disso até os dias de hoje. Desde então aprendi uma coisa, nunca poderei derrotar Ryan em nada.

Pois além de ter me mostrado que mais importante do que simplesmente apenas executar um serviço, um médico deve agir com ética, moral, e integridade de caráter. Pois o que conta não é a quantidade de procedimentos que realizamos ou o sucesso que obtemos, mas sim a segurança e saúde do paciente em primeiro lugar.

Se eu poderia esperar naquele momento para usar a sala de cirurgia algumas horas depois, como no dia eu realmente podia e ele sabia muito bem disso, então que eu esperasse. Foi uma bofetada de luva quando ele me colocou no meu devido lugar, fazendo-me aguardar como qualquer outro médico deveria fazer, e ele não errou em nada.

Ryan Foster foi a luz que despertou minha consciência naquele dia como profissional, e me fez rever os conceitos que até então eu tinha como corretos em minha vida. E a partir desse breve acontecimento e de outros tantos que foram ocorrendo ao longo dos anos em que nos conhecemos, que eu tomei para mim sua figura como um referencial a ser copiado, o qual me orgulho e tento seguir do meu jeito meio torto.

Ryan é um homem de meia idade, acredito que talvez tenha cerca de uns quarenta e cinco anos, devido a sua aparência bem conservada, uma vez que ele se recusa a revelar sua idade, então eu tento adivinhar sem muito sucesso. Todavia para mim ele parece ter um século de vida acumulado em grande inteligência sabedoria. Foster me ensina tanto, e com extrema paciência, que para mim ele é a figura mais próxima da paterna que possuo atualmente.

E é por isso que meu coração se encontra em frangalhos, como se um trator tivesse passado por cima uma vez e depois dado ré sobre ele, ao perceber que decepcionei a pessoa que mais admiro nessa vida, e a que mais se importa com meu bem estar também. Eu me sinto em péssimo estado mais pelo o que causei a Foster, do que pela briga em si que tive com Gregory.

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