Autora: Charlene C.
Alina
#aviso/gatilhos
Abri a porta do provador, empolgada.
— Como ficou?
Meu vestido preto de lantejoulas, com decote tomara que caia em formato de coração, moldava perfeitamente meu corpo.
— Perfeito, Alina. Nesta formatura, só terão olhos para nós três.
Minhas amigas, Kassia e Núbia, também estavam impecáveis, e estávamos animadas. Afinal, foram cinco anos de muito esforço e dedicação para nos formarmos em Administração.
Eu juntei o dinheiro fazendo consultoria para pequenos negócios por um preço quase simbólico. Meu pai tinha dinheiro de sobra, mas não me queria em festa alguma, e achou que cortar meu orçamento seria suficiente.
Ao final da cerimônia, houve a entrega simbólica do diploma. O verdadeiro seria enviado para a casa nossa casa. Fizemos o juramento e tiramos muitas fotos. Fui a oradora da turma com muito orgulho, o fim de cinco anos de dedicação. Cinco anos em que finalmente pude fazer amigas e, ainda que pouco, escapar das garras do meu pai.
Minha corda para independência, minha liberdade de pertencer a alguém… enfim, pertenceria a mim mesma.
Senti falta dos meus pais na formatura, ele não gostava de festas, por ele eu nem sequer participava. Todas as garotas abraçavam seus parentes, e eu estava ali, sozinha, com o canudo na mão. Por fim, meu namorado me envolveu em um abraço de urso, levantando-me do chão.
— Enfim formada, a administradora mais linda que o Norte já viu.
Ele me rodopiou no ar, fazendo-me sentir leve.
— Pronta para a melhor parte?
— Prontíssima — respondi com um sorriso nervoso.
Hoje eu me entregaria a ele, depois da festa.
Dancei com minhas amigas até cansar e, agora, dançava com meu namorado. Nossos corpos estavam sensíveis, carregados pela expectativa do que viria a seguir, quando ouvi meu nome sendo chamado pelo locutor da festa.
— A rainha do baile desta noite é… Alina! — Eu não acreditei. Comecei a gritar eufórica, recebi uma coroa de flores ao som de muitos aplausos e assobios da minha turma, meus olhos nublaram de felicidade. Obrigada deusa, cada noite acordada estudando iria valer a pena.
Senti meu braço sendo puxado com força antes mesmo de descer o último degrau.
Olhei na direção do puxão para dar de cara com meu pai.
— Então é assim, Alina? Não te disse que não queria você em festa nenhuma com essas lobas perdidas? — Meu pai estava furioso.
Meu rosto queimou de vergonha diante de todos. Meu namorado me puxou de volta para o lado dele.
— Alina é maior de idade e não precisa mais seguir suas ordens — esbravejou meu namorado.
Um grupo começou a se formar ao nosso redor.
— E você, quem é?
— Sou namorado dela.
Meu pai empurrou meu namorado, que caiu sobre uma mesa, derrubando taças e garrafas. Gritos ecoaram das fêmeas sentadas, e rosnados vieram dos machos que as acompanhavam.
— Pois seu namoro acabou. A partir de hoje, Alina é uma loba acasalada. — O olhar dele se voltou para mim como se eu tivesse o enganado.

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