PERSPECTIVA DA CELESTE
Cada passo desse maldito desafio tinha sido um exercício de frustração.
Se eu soubesse, teria estudado os meus companheiros de equipe em preparação para o TFL, teria aprendido quem eram esses desconhecidos com quem fui agrupada: suas forças, suas fraquezas e os pontos vulneráveis nas suas armaduras.
Mas eu não fiz isso. Simplesmente presumi que a minha presença, como irmã do Alfa deles, seria suficiente. Naturalmente, pensei que eles gravitariam ao meu redor, puxados pelo meu magnetismo como a lua puxa a maré.
Eu estava errada.
Cada um deles me irritava de uma forma diferente: o temperamento explosivo do Callum, as observações mordazes da Lisa, o comportamento passivo-agressivo do Dylan e o desprezo descarado da Elara.
O que mais doía era perceber que eles não me admiravam. Eles não me respeitavam. Droga, eles mal me reconheciam.
Claro, fiquei dez anos longe da Alcateia e de fato mal os conhecia, mas isso não deveria ter importado. Eles deveriam ter me acolhido instantaneamente e me tratado como a realeza que sou.
E eu deveria ser a líder do time.
Não a maldita da Elara.
O pior de tudo? Ela tinha feito questão de me sabotar em todas as oportunidades.
Só de pensar na maneira como ela me humilhou na frente do time da Sera, uma raiva tão potente e vil surgia na minha garganta que eu achava que ia vomitar.
Eu culpava o Ethan.
Ele foi veementemente contra a minha participação no TFL, mas eu não ia deixara Sera chamar ainda mais atenção participando do Torneio.
Consegui convencê-lo, mas ele fechou violentamente a porta para a minha reivindicação de liderança, recusando-se a ceder nesse ponto.
Não, dane-se a irmã dele. Ele preferiu dar o papel à sua Gama inútil, que, por algum motivo inimaginável, me odiava.
Ela nunca tinha sido calorosa comigo. Enquanto a minha Alcateia me adorou desde pequena, tudo que eu recebia da Elara eram olhares frios e indiferentes.
E a parte que mais me enfurecia? Ela redirecionava todo aquele calor para a maldita Seraphina.
E, até agora, quando a minha irmã usou de suas manobras desleais para passar nas provas, o que a Elara fez? Foi direto para o lado da Sera, como um inseto atraído por luz.
E eu fiquei na geladeira.
Pois bem. A Elara se arrependeria. Todos os membros insignificantes desta equipe insignificante se arrependeriam.
Assim que o Torneio terminasse, eu teria uma séria conversa com o Ethan. Apesar da nossa relação estar meio abalada no momento, eu sabia que o meu irmão ainda me valorizava. Ele não hesitaria em dispensar a Elara quando eu explicasse o quanto ela foi cruel comigo, como me alienou ou como ela tramou para manchar a minha imagem com os outros.
Ninguém cruzava o caminho de Celeste Lockwood sem consequências.
Mas, primeiro, a vitória.
A patética equipe da Sera estava em algum lugar dessa vasta extensão de neve, e eu a derrotaria para chegar primeiro ao Guardião, custe o que custar.
Com um pouco de sorte, eles congelariam até a morte antes mesmo de terem a chance de tentar.
Chegamos ao topo de um morro de pedra e neve e senti o ar tão fino e cortante que fez os meus pulmões arderem. E lá estava ele.
Pelo dourado brilhando sob a luz do sol. Olhos como âmbar derretido. Músculos rígidos, tensos, tão majestosos que doía olhar.
Kieran.
Meu coração deu um salto.
Por um momento, esqueci do frio nos meus dedos e da dor nas minhas pernas.
Ele estava incrível na forma imponente do Ashar, a própria imagem de força e autoridade. Um arrepio de alegria percorreu a minha espinha. Este era o momento, a minha chance de me provar!
Com certeza, o Kieran não ia dificultar as coisas para mim. Eu era a sua futura Luna, o amor da vida dele. Certamente, ele não me atacaria na frente dos outros. Não, ele ia se conter. Ele me deixaria brilhar. E, quando as minhas mãos se fechassem em torno daquele talismã que ele carregava no pescoço, eu seria a heroína do nosso time. Elara engasgaria com o seu desprezo e os outros se arrependeriam da sua animosidade. Eles finalmente me veriam pelo que eu era, uma futura Luna.
"É o...?" Callum sussurrou.
"Sim," eu disse, incapaz de esconder a alegria na minha voz. "Alfa Kieran Blackthorne."
Lisa gemeu. "Ótimo. Simplesmente ótimo."
Revirei os olhos enquanto uma onda de inquietação passava pelo meu time.
Tolos de mente pequena. Eles não entendiam que isso era uma oportunidade disfarçada de desafio.
Endireitei os ombros, ajustei o colarinho do casaco e caminhei para frente coma determinação renovada. "Fiquem pra trás. Eu sei como lidar com ele."
Elara agarrou o meu braço e me parou com o seu punho de ferro. "Com licença, onde diabos você pensa que tá indo?"
"Ele é meu noivo," declarei orgulhosa. "É como se tivessem nos dado o talismã em uma bandeja de prata."
Elara zombou. "Você acha que isso importa aqui? O que... Você acha que vai só chegar lá e ele vai entregar o talismã? Você não pode ser tão ingênua assim."
Lutei contra a vontade de dar um tapa naquela expressão de desdém dela. "Observe e aprenda." Vaca.
Me soltei do aperto da Elara e caminhei à frente, cada pisada na neve como uma declaração de certeza.
"Kieran!" Minha voz ecoou pelo espaço aberto, clara como o frio.
Levantei o queixo e deixei o vento jogar as mechas de cabelo no meu rosto, imaginando que seria uma cena bem marcante. "Sou eu, querido."
Por um breve instante, o olhar dourado dele se voltou para mim. Reconhecimento, com certeza era reconhecimento, iluminou aqueles olhos ardentes.
"Kieran," repeti, desta vez mais suave, dando mais um passo determinado. "Não precisa dessa encenação. Deixa eu levar o talismã, amor."
A forma imensa do Ashar se mexeu, contraindo os músculos. O chão tremeu com o som sutil das suas garras na pedra e a respiração dele formou nuvens quentes que se aproximavam como um aviso.
Ainda assim, continuei avançando. Kieran nunca me machucaria. "Sou a sua futura Luna," lembrei docemente. "Imagina a honra que levarei pra casa quando eu vencer o TFL."
Foi então que o rosnado veio. Baixo, reverberante, tão profundo que sacudiu os meus ossos.
Os pelos dos meus braços se arrepiaram e os lábios do Ashar se retraíram, revelando presas mais longas do que os meus dedos.
Meus passos pararam.
O rosnado se transformou em um urro enquanto ele avançava, mais rápido do que os meus olhos podiam seguir. A força do impulso tirou o ar dos meus pulmões, embora ele ainda não tivesse me tocado. Ele estaria em cima de mim em um instante. As garras brilhavam, os dentes cintilavam...
Fui empurrada de lado, caindo na neve.
Elara estava no meu lugar, firme, com os olhos faiscando. "Você tá maluca?" ela gritou, enquanto desviava o golpe com a lâmina. Faíscas voavam onde o aço encontrou a garra. "Ele estava prestes a te partir ao meio!"
"Ele não faria isso!" exclamei, levantando-me rapidamente, mas minha voz falhou.
Meu coração estava disparado na garganta, traiçoeiro e alto. Kieran nunca me machucaria... certo?
"Ele faria sim," Elara retrucou. "Sua idiota."
Ashar recuou, rugindo, e o resto da minha equipe se lançou à ação.
Callum foi o primeiro a atacar, a sua machadinha brilhando enquanto desferia um golpe no flanco do Ashar. O lobo o afastou com um único movimento da pata, lançando-o contra a Lisa, que resmungou enquanto ambos caíam na neve.
Dylan circulava cautelosamente, disparando dardos em sucessão rápida, mas eles ricocheteavam inofensivamente naquele pelo reluzente.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei