PERSPECTIVA DA SERAPHINA
O mundo acima de mim era uma mancha de ondulações e sombras, mas tudo que eu conseguia sentir era o frio sufocante.
Meus membros agitavam-se, pesados e inúteis, enroscados no tecido molhado do meu vestido. O pânico me dominava, mais feroz que o gelo. Meus pulmões gritavam, mas minha mente gritava mais alto.
'De novo não. De novo não!'
O lago de carpas era decorativo e não muito profundo, mas a água, qualquer corpo de água, sempre me aterrorizou. Eram todos iguais: escuros, imprevisíveis e insaciáveis.
Eu era uma criança de novo, presa em uma memória da qual não conseguia escapar. Mãos cruéis me empurraram pelas costas até o lago que ficava nos fundos da propriedade dos Lockwood e eu lutei sob o peso das minhas próprias roupas e com a ausência de ar.
Lembrou-me do sufocamento lento e da assustadora clareza de que eu ia morrer, sem nem ao menos ter vivido.
Naquela época, meu pai me puxou para fora do lado. Desta vez, eu não sabia se alguém faria isso.
Então, algo rompeu o frio.
Meus olhos estavam cerrados, mas senti o puxão e então braços quentes, fortes e firmes me envolveram.
Eu agarrei sem pensar, como se a minha vida dependesse disso. Meus dedos desesperados grudaram na camisa encharcada e nos ombros largos.
Eu não precisava olhar para saber quem era. Kieran.
Nós rompemos a superfície juntos e eu engasguei, sufocando com o ar e a água suja do lago. Ouvi outro 'splash' próximo e outra cabeça rompendo a superfície, Lucian, mas eu já estava sendo puxada em direção à margem.
Pessoas se aglomeravam nas bordas do lago. Ouvi vozes gritando, a Maya berrando com alguém e passos correndo.
Minha visão turvou. Meu peito queimava.
Kieran me carregou barranco acima, como se eu não pesasse nada, com a respiração ofegante. Ele me colocou no seu colo assim que saímos da água.
"Sera?" Suas mãos, trêmulas e quentes, seguraram o meu rosto. "Sera, olha pra mim."
Eu pisquei para ele, tossindo. Meus dedos se agarraram à sua camisa como se eu ainda precisasse de uma âncora, como se, ao soltar, eu fosse escorregar de volta para aquela escuridão assustadora.
Lucian tropeçou na margem logo atrás de nós, encharcado e ofegante.
"Ela tá bem?" ele perguntou, aparecendo ao meu lado.
"Ela tá respirando," Kieran disse, a voz tensa. Seus olhos não desviaram dos meus e seus braços continuaram apertados ao meu redor. "Você tá bem. Você tá bem. Eu tô aqui com você."
Meus dentes batiam tanto que eu não conseguia falar e o Kieran envolveu meus ombros com o seu paletó. Ele provavelmente tirou a peça antes de mergulhar, pois estava seca e quente, com o cheiro dele, e minhas mãos trêmulas a puxaram mais para perto de mim.
Foi quando ouvi a risada sarcástica.
"Mas é claro," a voz da Celeste ecoou, venenosa e alta o suficiente para atrair a atenção de todos, "claro que você cairia direto nos braços do meu namorado. Você realmente não consegue superar a rejeição, não é, Sera?"
Fechei os olhos. Essa noite não. Agora não.
"Celeste," Lucian advertiu, se colocando entre nós, mas o Kieran foi o primeiro a se levantar.
"Afaste-se," ele disse rispidamente, afastando o cabelo úmido do rosto. "Ela quase se afogou."
"É," Lucian acrescentou. "Graças à sua amiga."
"Foi um acidente," a voz trêmula da Emma soou. Todo o seu ar de valentia parecia ter sumido e ela soava com uma criança prestes a ser repreendida. "Eu tropecei e..."
"Mais uma palavra e você vira comida de peixe," Maya sibilou. "E eu juro que ninguém vai pular pra te salvar."
Forcei-me a sentar. Todo aquele vai e vem estava piorando minha dor de cabeça latejante.
"Da próxima vez," Celeste sibilou, com o lábio se curvando de desprezo, "deixa ela se afogar."
Ouvi o Kieran respirar fundo, surpreso. "Celeste!"
"O quê?!" ela retrucou. "Por que diabos você pulou pra salvá-la?" Seu braço varreu em direção ao seu público cativo. "Bem na frente de todo mundo."
Ela voltou seu olhar, mais gelado que as profundezas de qualquer corpo d'água, para mim. "Deve ser bom, ter seu ex nas suas mãos, né, Sera? Você deve estar super orgulhosa de si mesma."
Levantei-me, cambaleando ligeiramente. Kieran estava imediatamente ao meu lado com uma mão no meu braço e a outra firmemente presa em volta da minha cintura.
Aquela veia na testa da Celeste ia explodir.
"Não," eu disse roucamente. Não sabia para quem estava falando, se para o Kieran ou para a Celeste. "Só... chega."
Celeste deu mais um passo à frente com os olhos brilhando com uma fúria cheia de justiça própria. "O que foi, tô mentindo? Ou de repente você ficou envergonhada de como constantemente se joga em cima dele? Ah, do que eu tô falando? Todo mundo sabe que você não tem vergonha. Você não consegue fazer um homem se apaixonar por você porque você é sem valor e impossível de amar, então você trama e manipula os homens porque é a única forma de..."
Algo dentro de mim se partiu.
Eu a esbofeteei.
Arfares ecoaram pelo jardim. Até a Maya parou de súbito.
Os olhos do Kieran se arregalaram. Eu meio que esperava que ele defendesse a Celeste novamente, mas ele parecia igualmente paralisado.
Celeste segurou o rosto e piscou, incrédula.
"Sua desgraçada..."
"Chega," sibilei. "Chega de ouvir você destilar essa amargura sobre mim, como se só você tivesse sido ferida."
"O quê?" Ela soltou uma risada curta e estridente. "Vai fingir que você foi a vítima?"
"Sim," respondi com firmeza. "Foi um erro, Celeste. E já arquei com as consequências por tempo suficiente..."
"Erro?" ela gritou, e eu estremeci.
"Você embebedou o meu companheiro predestinado e o seduziu, prendendo-o por dez anos por causa de uma criança, e agora quer chamar isso de um maldito 'erro'?!"
Fechei os olhos, enquanto as memórias daquela noite, que eu tentava bloquear, invadiam minha mente.
"Pare," sussurrei, tremendo de novo, mas agora não por causa do frio.
"Não," retrucou Celeste, e senti ela se aproximar. "Conta pra todo mundo. Conta pros seus novos amigos quem você é de verdade. Vocês sabiam que o Kieran me amava e me escolheu, mas ela o embebedou. Ela arrastou ele pra um quarto de hotel..."


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei