PERSPECTIVA DA SERAPHINA
O ar da manhã estava incomumente suave e uma brisa leve sussurrava entre as árvores enquanto a luz do sol passava manchando as copas das folhas acima. Era o tipo de clima que fazia a gente pensar, só por um segundo, que o mundo não era um lugar tão ruim assim.
Talvez por isso deixei as chaves do carro na mesa da entrada e decidi caminhar até a sede da SDS. Eu precisava de ar. Precisava do silêncio entre os passos. Precisava da distância da casa, do olhar preocupado do Lucian, das mentiras reconfortantes da Maya e, acima de tudo, do eco da minha própria mente.
Não conseguia esquecer do meu sonho. Ele estava grudado em mim como aquele nevoeiro que encobria minha loba. Meus dedos insistiam em se contrair como se sentissem algo escapando entre eles.
Mas eu me agarrava à promessa... logo. Logo estaria com a minha loba e me sentiria completa.
A calçada serpenteava tranquilamente pelos quarteirões residenciais, passando por cercas vivas baixas e casas silenciosas. A maior parte do bairro ainda estava dormindo ou começando a despertar. Havia uma paz mundana e simples nisso.
Eu sabia que uma parte de mim deveria ser cautelosa, considerando que da última vez que saí para caminhar acabei com uma bala de prata no coração.
Mas o carro preto que se movia lentamente pela rua atrás de mim, cortesia do Kieran, sem dúvida, era igualmente irritante e reconfortante.
Estava no meio do bairro quando ouvi.
Um grito de criança, agudo e surpreso, seguido pelo som inconfundível de pneus cantando.
Meu coração disparou e os meus instintos maternos foram ativados como uma antena.
A rua à frente se dividia em uma interseção. Virei a esquina a tempo de ver um garotinho, que não devia ter mais do que sete anos, parado no meio do asfalto.
Ele estava congelado, com uma bola de futebol amassada ao lado do pé e olhando, com os olhos arregalados, para a van de entrega que vinha na sua direção.
O motorista estava buzinando e tentando desviar, mas era rápido demais e perto demais.
Sem pensar, corri. Meus tênis batiam forte no asfalto e a bolsa ficou esquecida em algum lugar na calçada.
O mundo se reduziu ao som da minha respiração e aos olhos arregalados e apavorados do garoto. Eram escuros, assim como os do Daniel. Cada músculo do meu corpo gritava para eu me mover mais rápido, e eu o fiz, deixando a onda de adrenalina superar o medo.
Cheguei até ele justo quando a van derrapou. Com os braços em volta do seu pequeno tronco, girei, puxando-o para o lado. Não tive tempo para analisar o impulso, apenas reagi, movida pelo instinto, para proteger seu corpo com o meu. Caímos no chão com força, meu ombro absorvendo o impacto enquanto me encolhia ao redor dele.
A van passou a poucos centímetros de nós. Ouvi os pneus chiarem novamente sob a batida frenética dos freios.
Então, um segundo som, mais pesado, mais rápido, mais próximo. Um movimento rápido acima de mim.
Mais alguém tinha pulado entre nós e a van. O impacto não veio do veículo, mas de um corpo largo e sólido que se plantou ali como uma barreira. A van bateu de raspão no braço dele enquanto ele girava, usando seu corpo para proteger o meu.
Kieran. Ele caiu no chão ao meu lado com um gemido baixo e fazendo uma careta de dor.
Por um momento, nenhum de nós se moveu. O garoto soluçava contra o meu peito e seus membros tremiam. Eu respirava tão forte que doía.
Então, ouvi o Kieran xingar baixinho. "Droga. Esse braço vai ficar cheio de hematomas."
Olhei para ele, ainda segurando o garoto e chocada demais para falar. Ele estava respirando rápido, tinha o maxilar cerrado e a manga do casaco rasgada e escura de sangue.
"O que diabos você tá fazendo?" ele disparou, os olhos brilhando enquanto se sentava, com uma careta de dor.
Pisquei. "O que...?"
"Você não é uma loba!" ele cuspiu. "E se aquela van tivesse te atropelado? E se você tivesse quebrado algum osso? O que você estava pensando, se jogando assim na frente de um veículo?"
Apertei o garoto mais forte, protegendo-o do tom elevado do Kieran. "Eu estava pensando que ele ia morrer se eu não fizesse nada."
"Existem outras pessoas no mundo, Sera!" ele gritou.
"Onde?!" rebati, olhando para a rua agora vazia. "Onde diabos elas estão?"
Seus olhos se estreitaram. "Você não precisa bancar sempre a heroína. Você não é indestrutível."
"E você é?" retruquei, apontando para o braço dele, que sangrava. "Você também não hesitou."
A expressão dele se contorceu, como se minhas palavras o tivessem ofendido fisicamente.
"Eu sou um Alfa," ele rosnou, os olhos cintilando. "Eu tenho um lobo. Você não."
"Eu faço treinamento."
"Ah, é?" Ele zombou. "Eles te treinam para correr em direção a vans na SDS?"
"Não," rebati. "Parece que esse prazer é reservado apenas pro treinamento na NightFang."
"Ben!" uma voz aguda ecoou pela rua.
"Mamãe," o garoto choramingou.
Levantei-me devagar, ajudando o garoto a se levantar junto comigo. "Vai," eu disse suavemente, encorajando-o a ir em direção à calçada, onde uma mulher, sua mãe, pelo jeito que gritava e chamava seu nome, corria na direção dele. "Vai lá, querido. Você tá bem."
O garoto disparou. Observei até que ele estivesse seguro nos braços da mãe, envolvido em um abraço apertado enquanto ela soluçava e beijava seus cabelos repetidas vezes. Um alívio inundou meu peito.
Então, me virei para o Kieran.
Ele estava de pé agora, segurando o braço contra a lateral do corpo e com uma expressão entre a fúria e a descrença.
"Você realmente acha que isso é sobre treinamento?" ele perguntou, com a voz baixa.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei