PERSPECTIVA DA SERAPHINA
A porta se fechou suavemente atrás de nós, abafando o som distante dos motores e o burburinho da festa que acontecia na rua.
Meus saltos, ainda úmidos por causa do lago das carpas, deixavam marcas leves no chão de madeira enquanto eu adentrava a quietude escura da minha sala de estar. Não me dei ao trabalho de acender as luzes. Não queria me ver.
Lucian ficou perto da porta, com a camisa encharcada e a gravata já abandonada. A água escorria das pontas do seu cabelo. Maya estava ao meu lado, próxima, mas sem me sufocar, e sua expressão era ilegível na penumbra.
Assim como durante o tenso trajeto de carro, ninguém disse nada.
Fiquei ali, sentindo-me fria e frágil, como se qualquer coisa pudesse me quebrar. Cruzei os braços ao redor do meu corpo instintivamente.
Lucian foi o primeiro a quebrar o silêncio. "Vou pegar uma toalha pra você."
Ofereci um sorriso suave para ele. "Obrigada. Elas estão no armário do corredor."
Ele acenou com a cabeça e sumiu no corredor. Maya me conduziu gentilmente até o sofá com a mão quente no meu cotovelo. Sentei, ou talvez desabei. As almofadas cederam sob o meu peso com um suspiro silencioso.
Ela se ajoelhou na minha frente e pousou as mãos nos meus joelhos. "Como você tá se sentindo?" ela perguntou suavemente.
Ri discretamente, meus dentes batendo levemente. "Fria. Atordoada."
Ela apertou meus joelhos. "Você não fez nada de errado."
Balancei a cabeça. "Sim... aparentemente."
Passei os últimos dez anos me culpando, acreditando que eu era a vilã na história da Celeste e do Kieran. Mas agora...
Ainda não tinha certeza se eu entendi o que aconteceu. Eu achei que sabia. Por anos, acreditei que sabia.
Lucian voltou com toalhas e um cobertor. Ele envolveu o cobertor ao redor dos meus ombros sem dizer uma palavra e entregou uma toalha para a Maya, que a usou para espremer a água do meu cabelo.
"Eu achei que a culpa era minha," eu disse, com a voz vazia. "Que eu tinha bebido demais. Que fui eu quem começou. Que eu... estraguei tudo."
As mãos da Maya pararam e ela encontrou o meu olhar. "Não foi você."
"Mas..."
Lucian sentou ao meu lado, próximo, mas sem me tocar. "Pelo que ouvimos, ficou claro que os acontecimentos daquela noite foram manipulados," ele disse, passando uma toalha pelo cabelo. "Me parece, Sera, que você foi mais vítima do que qualquer outra coisa."
Eu suspirei, apertando ainda mais o cobertor. "A Celeste enviou aquela mensagem, eu sei que foi ela. E o Kieran..."
Eu me virei para a Maya com os olhos ardendo. "Posso pegar a pedra emprestada? Se eu conseguir fazê-los sentar e conversar, nós podemos..."
Ela hesitou. Depois, balançou a cabeça devagar, com pesar. "Não é o que você pensa."
Eu pisquei. "O que você quer dizer com isso?"
"Ela não é mágica," Maya admitiu, pegando a pedra lisa na sua bolsa. "Comprei numa feira. É só uma pedra polida."
"O quê?"
"Eu sou um polvo roxo com duas cabeças." Ela apertou a pedra e ela brilhou.
Minha respiração engasgou. "Que diabos, Maya?"
Ela fez uma careta. "Sinto muito. Foi uma decisão do momento. Mas você viu como a Emma cedeu facilmente. E o Kieran também. A confissão foi real, mesmo que o método não fosse."
Eu balancei a cabeça. "Você não tem certeza. Você não sabe se a pedra da verdade é real."
Minha cabeça caiu, exausta demais para invocar raiva. A decepção se espalhou sobre mim como uma neblina. "Eu só queria algo verdadeiro."
As feições da Maya suavizaram. "Eu sei. E sinto muito. Mas, Sera... Por que ele diria aquelas coisas se não fossem verdade? Você viu como ele estava abalado. Você sabe a verdade. Ou pelo menos uma parte dela."
A mão do Lucian encontrou a minha, trazendo-me de volta à realidade. "O Kieran admitiu que a culpa não Foi sua. A Celeste pode negar o quanto quiser, mas qualquer um que tenha olhos pode ver que ela não é tão inocente quanto finge ser."
Fechei os olhos. O incêndio daquela noite ainda queimava atrás das minhas pálpebras. O cheiro intenso de pinho, a música da festa ecoando ao fundo, o efeito do álcool entorpecendo meus sentidos, a vibração do meu celular quando a mensagem chegou.
"Ela disse que precisava me ver, que precisava de mim. Eu não sabia..." Minha garganta apertou. "Pode ter sido uma armadilha?"
"Se foi, deve ter saído pela culatra. Não consigo imaginar que ela teria te mandado pra aquele quarto se soubesse que o Kieran estava lá."
Maya repousou suavemente a mão sobre o meu coração. "Sera, eu te prometo que essa noite foi só o começo. A verdade vai surgir e você vai ser inocentada."
Exalei, trêmula. "E se... E se isso mudar tudo? E se eu não gostar da verdade?"
Lucian respondeu, com a voz firme. "Não importa o que venha a mudar. Isso..." ele apontou entre nós três, "nunca vai mudar."
"É," Maya entrou na conversa. "Boa sorte em se livrar de mim." Ela cravou as unhas nos meus joelhos sem machucar. "Sou como uma sanguessuga, viu?"

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei