PERSPECTIVA DO KIERAN
Era pra ser uma tarefa simples.
Entrar e sair. Pegar as compras. Voltar antes que a Celeste começasse a ficar inquieta.
Assim que concordei com a mudança dela para minha casa, ela imediatamente, e milagrosamente, se sentiu melhor e, uma hora depois, teve alta do hospital.
Passei as últimas seis horas mudando as coisas dela da casa da Margaret para a minha. Foi... um tanto avassalador, para dizer o mínimo. Mas a Celeste ficou muito feliz, então ia valer a pena.
Se senti empolgação quando ela me pediu para sair e comprar mantimentos para fazermos um jantar caseiro na nossa primeira noite juntos? Fazer o quê, né.
O que eu realmente não esperava era encontrar a Sera pela segunda vez hoje.
Eu estava colocando as últimas compras no porta-malas quando o som das risadinhas me fez virar. E lá estava ela.
Sera.
Ela ainda não tinha me visto, então aproveitei a oportunidade para observá-la. Seu rosto estava voltada para a Maya e tinha um sorriso radiante como mil sóis.
Deuses, aquele som da risada dela. Eu a ouvi rir mais vezes desde que nos divorciamos do que durante todo o nosso casamento e, a cada vez, parecia cavar um buraco maior dentro de mim.
Elas se viraram na minha direção, com os braços cheios de sacolas de compras, e eu sabia que era minha deixa para dar meia-volta e ir embora antes que tivéssemos mais uma discussão.
Mas não fiz isso.
Parecia que, com a Sera, sempre havia algo não dito, algum assunto inacabado. A questão daquela noite era que eu não estava satisfeito com a forma como deixamos as coisas de manhã.
Minhas pernas se moveram antes que eu pudesse detê-las.
Minha boca se abriu antes que eu pudesse me conter. "Seraphina?"
No momento em que os olhos dela encontraram os meus, todo o resto pareceu desaparecer. Tempo. Barulho. A multidão passando. Até mesmo a voz distante na minha cabeça que gritava que era uma péssima ideia.
Os olhos dela se estreitaram ligeiramente e o corpo dela se tensionou com aquela compostura silenciosa e afiada que ela tinha aperfeiçoado de repente.
"Eu não esperava te ver aqui", acrescentei.
Ela levantou uma sobrancelha e disse suavemente: "O que, os seus espiões não te atualizaram do meu paradeiro?"
Eu estremeci. Justo.
"Eu não tô procurando uma briga", eu disse calmamente.
Ela deu um risinho. "Essa é novidade."
Cerrei o maxilar. "Sera..."
"Escuta, Kieran", Maya interveio, "A Sera e eu tivemos um dia e tanto e, honestamente, já tivemos nossa dose mais do que suficiente de Alfas egocêntricos, então se você puder..."
O rosnado escapou antes que eu pudesse me conter. "Não me lembro de te chamar pra essa conversa, Maya. Só porque o Ethan é o seu companheiro não significa que você pode falar comigo como quiser."
Ela deu um passo à frente, mas continuou com metade do corpo protegendo a Sera como se eu fosse um perigo para ela. A Sera deve ter contado para a Maya o que aconteceu esta manhã, mais uma vez me pintando como o vilão.
"Acho que você vai descobrir, Kieran, que eu faço o que bem entendo, e não tenho medo de um moleque que se acha muito importante."
A raiva pulsava dentro de mim. Eu não estava no melhor dos humores e, se Maya continuasse me provocando, ela iria descobrir da maneira difícil que...
Sera colocou a mão no braço da amiga, impedindo-a de avançar. Maya se virou e arqueou a sobrancelha.
"Tá tranquilo," disse a Sera suavemente, olhando para mim com desconfiança. "Eu consigo lidar com ele."
"Você não deveria ter que fazer isso," insistiu Maya.
Sera balançou a cabeça. "Não vou demorar. Me espera no carro?"
Maya hesitou antes de suspirar. "Tá bom."
Ela me lançou um olhar ameaçador que eu retribuí antes de se virar e sair pisando forte.
Quando ela saiu de vista, Sera se virou para mim e cruzou os braços, fazendo uma sacola preta pender da sua mão. "Acha que conseguimos ter essa conversa sem que os níveis de testosterona e agressividade aumentem?"
Revirei os olhos. "Eu não sou um animal."
Ela deu uma risada contida. "Parecia, viu."
Suspirei, determinado a não dar razão a ela. "Escuta, Sera, sobre essa manhã..."
"Como a Celeste está?"
Pisquei, pego de surpresa. "O quê?"
Ela deu de ombros. "O Ethan me contou que ela tentou se matar."
Balancei a cabeça, surpreso com o quanto eu não queria falar sobre a Celeste ou ser lembrado de que ela estava em casa me esperando. "Ela tá bem."


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei