PERSPECTIVA DO KIERAN
Eu vi o primeiro aviso de débito no meu telefone bem na hora em que estava destravando o carro.
Depois a segunda.
E a terceira.
Quando me sentei no banco do motorista, meu cartão preto já tinha acumulado mais atividades do que normalmente via em um mês inteiro.
Meu celular continuava vibrando com notificações de transações, uma de uma boutique de luxo no centro, outra de uma floricultura chique, e então uma longa e confusa lista de fornecedores, desde decoradores de festas até artesãos de velas.
Segurei o volante com uma mão e rolei a tela com a outra, tentando entender o caos. Lojas de maquiagem. Papelaria personalizada. Caviar. Um maldito harpista.
O que diabos é isso?
Minha mente imediatamente pensou na Celeste. Ela tinha acabado de se mudar e já estava tratando meu cartão como se ele não tivesse limite. O que, tecnicamente, era verdade. Mas, mesmo assim, fiquei alarmado com a velocidade com que ela estava acabando com os meus recursos.
Era, no total, mais dinheiro do que a Sera tinha gastado na década em que fomos casados. E todas as despesas dela eram, na verdade, para o Daniel.
Eu não sou um homem que costuma entrar em pânico mas, quando você vê o seu cartão sendo drenado tão rapidamente, sua mente vai direto para o pior.
Talvez a Celeste tivesse tido outro surto. Talvez essa fosse a forma dela lidar com as coisas. Talvez...
Desliguei o motor e fui para casa rapidamente, a tensão crescendo no peito. A culpa, a raiva e a frustração do meu encontro com a Sera ainda estavam lá, mas foram escondidas sob a sensação inquietante de que algo estava errado.
Esse não era um comportamento normal, nem mesmo para a Celeste.
Estacionei na frente de casa e imediatamente notei a diferença.
Balões. Balões de verdade, amarrados nas colunas da varanda como se estivéssemos nos preparando para um chá de bebê.
"O que diabos tá acontecendo?"
Empurrei a porta e minha casa tinha... desaparecido.
No lugar dela, um tumulto de tons pastéis suaves, fragrâncias florais pegajosas e pilhas de sacolas de compras de todas as lojas imagináveis. Precisei desviar de uma caixa rosa com a inscrição "lembrancinhas" só para chegar ao hall.
"Celeste?" chamei.
"Aqui, querido!" Segui a voz dela, passando por sacolas, caixas de sapatos e um número suspeito de almofadas espalhadas pelo corredor como migalhas de pão.
Minha sala de estar tinha se transformado no que parecia ser o rescaldo de um concurso de beleza. Fitas e tecidos pendurados nas cortinas. Um balão gigante com um "C" cintilante flutuava perto do teto, como um presságio ameaçador. Celeste estava no meio de tudo, com as mãos nos quadris, vestindo um robe de seda pêssego e bebendo um smoothie verde com um canudinho em forma de flamingo.
"Kieran!" ela sorriu. "Você chegou bem na hora certa. Preciso da sua opinião. Você prefere rosas ou peônias pros arranjos de mesa?"
Eu a encarei. Depois, encarei o cômodo.
E, então, meu celular, que vibrou com mais uma notificação de débito. "Você foi às compras," declarei, sem emoção.
Eu tinha ficado fora menos de uma hora. Menos. De. Uma. Hora.
"Ah, amor, tô fazendo uma curadoria. Estas coisas não são apenas compras, são investimentos no nosso futuro juntos."
Avancei, ignorando o caos cintilante. "Celeste, o que é tudo isso?"
Ela piscou, colocando seu smoothie em uma mesa lateral que não era minha. "Eu quero dar uma festinha pra anunciar oficialmente que estamos juntos de novo. E, que maneira melhor de fazer isso do que organizar um soirée elegante e de bom gosto que rivalize com o baile de gala do Lucian Reed?"
Esfreguei o queixo, tentando encontrar o que dizer. Esta manhã, ela bebeu água sanitária, e agora estava planejando uma festa?
Meu silêncio se prolongou o suficiente para que ela inclinasse a cabeça.
"Algum problema?" ela perguntou, com a voz levemente tensa.
Olhei novamente para o cômodo e meu peito apertou. Era demais. Cores demais, bagunça demais, Celeste demais. Minha casa tinha sido despojada de qualquer coisa remotamente minha.
"Cadê o desenho do Daniel?" perguntei de repente.
"O quê?"
"A pintura a dedo que ele fez, aquela que estava pendurada acima da lareira."
Celeste acenou com uma mão bem cuidada. "Ah, aquela coisa velha? Levei pra garagem. Não combinava com o novo estilo da casa."
Minha boca abriu e depois fechou novamente.
"E as fotos?" Caminhei até a estante no canto da sala de estar. "Cadê a foto da formatura do Daniel no jardim de infância? E aquela dele com a fantasia de lobo?"
Celeste deu de ombros. "Estão em uma caixa. Em algum lugar seguro. Precisava de espaço pra memórias mais recentes."
Evidentemente, agora as prateleiras estavam adornadas com retratos cuidadosamente selecionados dela: a Celeste em um evento de gala, a Celeste na praia, a Celeste comigo de dez anos atrás antes de tudo desmoronar. Era como se ela estivesse tentando apagar todos os anos que passaram entre aquele tempo e agora.
Meus passos me levaram até a geladeira. Eu estava desesperado para encontrar algum ponto de referência, alguma lembrança da vida que eu construí fora dessa deslumbrante alucinação. Sumiu.
Os boletins escolares que o Daniel orgulhosamente havia fixado com seus ímãs do Bob Esponja tinham sumido. A geladeira estava vazia, exceto por um único cardápio colado: 'Cronograma de Planejamento do Jantar da Celeste.'
Fiquei olhando para ele, incrédulo.
"Eu só achei que era hora de renovar as coisas," Celeste disse atrás de mim. "Um novo capítulo. Novas memórias. Um recomeço."
Um recomeço.
Em vez disso, caminhei em direção à escada e olhei para o segundo andar.
"O que você tá fazendo?" ela retrucou.
"Vou dormir," respondi. "Tô exausto."
"Mas íamos jantar."
"Pede alguma coisa." Não me virei. "Você já provou que é especialista nisso."
Subi as escadas, batendo as botas fortemente na madeira.
O corredor do andar de cima também tinha mudado.
O perfume dela impregnava as paredes. O robe dela estava jogado sobre o corrimão. A porta do meu quarto estava aberta e revelava um novo conjunto de lençóis de seda, rosa, caros.
Na mesa de cabeceira, uma vela com aroma de romã e baunilha.
Em seguida, entrei no quarto do Daniel.
E exalei aliviado.
Ela não teve tempo de mexer no quarto dele.
A cama em forma de carro de corrida com lençóis de foguete, os trilhos de trem serpenteando pelo quarto, os brinquedos, os livros, as fotos emolduradas... Tudo estava lá.
Pisei no quarto e me sentei na beirada da cama, passando suavemente as mãos sobre os lençóis dele. Ele não dormia nesse quarto há muito, muito tempo, mas eu quase podia me convencer de que ainda sentia o calor dele por toda parte.
Coloquei a mão sobre a boca e gemi.
O que diabos eu estava fazendo? Como eu tinha chegado aqui?
Divorciar-me da Sera foi o que provocou tudo isso. Achei que era o certo a fazer, a única forma de seguir em frente. Pensei que o amor que sentia pela Celeste era a coisa mais importante do mundo. Mas agora...
A Sera se transformou em uma completa estranha. O Daniel estava a quilômetros de distância. Meu lar... não existia mais.
Meu telefone vibrou novamente. Outra cobrança. Outro capricho. Outra coisa que eu tinha que fingir que não me fazia sentir como se estivesse sufocando.
Me movi e me encolhi no edredom do Daniel, inalando avidamente os vestígios do seu cheiro que ainda restavam na cama.
Eu cabia desconfortavelmente na cama dele, sendo que as minhas pernas compridas pendiam pela borda.
E foi assim que adormeci, desconfortável e inquieto, sentindo-me um estranho na minha própria casa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei
Finalmente toda a verdade do Lucian veio à tona. Só não faz sentido ele saber antes de qualquer pessoa (inclusive família) que a Zara era prima. Cadê a tia irmã de Margareth então? Porque Sera e Margareth foram mais importantes para Catherine do que esse outro braço da família?...
Quero saber até onde o Lucian estar envolvido com Katherine e Marcos...
Ok, sera não aceitar o vínculo. Agora deixa o Kieran seguir a vida dele em paz...
Tá muito bom os capítulos...
Preciso de ajuda pra comprar moedas, não consigo completa minha compra...
Sera era uma bobinha manipulada e do nada se tornou fodona. A autora exagerou demais. Comecei a ler uma romance onde o começo imita uma história que já existe e depois, a autora acrescentou "os mutantes" na história. Kkkkk Mas os capítulos que abrem essa história nada mais é do quem o plágio de uma história que já existe. A irmã, o marido que gosta da irmã, a noite em que a irmã errada dorme com o cara, casa com ele tem um filho. O divórcio e só depois ele começa a gostar dela... Enfim, copiou na cara dura....
Livro muito bom!!! Sem muita enrolação e historia com enredo e fluxo. Aguardando próximos capítulos e o encerramento breve!!!...
SERAPHINA é muito fraca e idiota,Catherine manipula ela fácil fácil, eu ia lá se sacrificar por uma pai uma família que sempre me tratou mal, eles que se virem...
Escritora por favor, melhora isso aí, Sera fez o ex marido comer o pão que o diabo amassou, botou homens na cara dele, agora a cobra da irmã dela baixa o espírito de Santa e Sara na primeira oportunidade já vai abraçar, me poupe, mais criatividade por favor...
Quando Sera vai descobrir a peste falsa e manipulador que lucian é?? Ele ainda foi embora com o amor da vida dele e ainda deixou a Sera responsável pelos negócios dele, Sera é muito idiota,...