Capitulo 2
A luz foi a primeira coisa que me atingiu, queimando minha pele. Parecia dolorosa demais para olhos que tinham se acostumado com a penumbra fétida do coma de anos.
Eu piscava, tentando entender onde estava, quando o teto se materializou acima de mim. Não era um teto de cela.
Era alto, decorado, com lustres de cristal que pareciam ter sido arrancados de um palácio europeu. As paredes eram claras, com sancas trabalhadas, e havia uma janela enorme coberta por cortinas de seda que deixavam a luz entrar como um véu dourado.
Eu estava numa cama.
Não uma cama qualquer, mas uma cama de casal enorme, com lençóis de algodão egípcio tão macios que minha pele mal sentia o atrito. O colchão parecia abraçar meu corpo, e pela primeira vez em muito tempo, minhas costas não doíam contra uma superfície dura.
Onde estou?
Tentei me mexer.
Não consegui.
O pânico subiu pela garganta. Eu movia a cabeça? Sim. Virava o pescoço? Sim. Mas o resto... braços, pernas, tronco... nada respondia. Era como se meu corpo tivesse sido cimentado na cama, pesado demais para obedecer a qualquer comando.
Foi quando eu o vi.
Sentado numa poltrona de veludo azul-marinho, a poucos metros da cama, com as pernas cruzadas e as mãos apoiadas no braço da cadeira.
Ele me observava com uma calma que parecia estudada, como quem analisa um experimento prestes a dar certo ou errado.
Mas eu não via o rosto dele.
Um chapéu. Preto, de abas largas, inclinado para frente, cobrindo-lhe os olhos e boa parte da face.
O queixo forte aparecia na sombra, a linha da mandíbula definida, os lábios em uma linha reta e fria. A postura era ereta, controlada, e havia algo naquela silhueta que me fazia prender a respiração.
Magnus Blackthone.
Sem o terno escuro de quando me tirou da prisão, ele usava agora uma camisa branca impecável, mangas levemente arregaçadas nos antebraços, calças pretas que custavam mais que o salário de um ano de qualquer pessoa comum, eu podia ver.
O chapéu, porém, permanecia. Como se ele não quisesse, me mostrar o que estava por baixo. E o mais estranho, ele ainda usava luvas.
— Acordou — disse ele.
— Onde...? — minha voz saiu um fio.
— Minha casa. Meu quarto de hóspedes. — Ele nem se mexeu na poltrona. — Você sofreu um infarto na prisão, quase morreu. Está assim há três dias.
Três dias.
Tentei processar a informação, mas minha mente estava lenta, pastosa.
— Não consigo me mexer — murmurei.
— Os médicos disseram que vai levar tempo. Seu corpo passou por um trauma imenso. O coma, o infarto, o peso... — Ele fez uma pausa, e algo brilhou na penumbra sob a aba do chapéu. Não sei se preocupação ou desprezo. — Tudo o que uma pessoa como você precisa.
A forma como ele disse "como você" deixou claro que não era um elogio.
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. Quando abri de novo, ele ainda estava lá. Imóvel.
— Por que me trouxe aqui? — perguntei. — Por que pagou minha fiança? E fez aquele acordo?
Ele inclinou levemente a cabeça, e a luz pegou na aba do chapéu, criando sombras que dançavam onde deveriam estar seus olhos.
— Porque preciso de você de certa forma, mas ainda vou descobrir se você é útil ainda.
— Precisa de mim? — Um riso amargo escapou. — Olhe para mim. Eu não posso nem me mexer. Não tenho nada.
Ele não respondeu. Apenas ficou me olhando, ou eu presumia que sim, porque era impossível saber para onde seu olhar se dirigia sob aquele chapéu. E naquele silêncio, eu me senti menor do que nunca.
— Obrigada — eu disse, sem saber por quê. Ou porque era a coisa certa a dizer. Porque, no fundo, eu estava tão desesperada por um gesto de humanidade que agradeceria até o homem que poderia ser meu carrasco.
Ele se levantou e se aproximou, ergueu a mão, um gesto mínimo, de quem rejeita algo.
— Você precisa descansar. Como seu corpo está se recuperando de uma quase falência, obviamente não conseguirá se mexer.
— Verdade... — murmurei, levando a mão ao corpo, sentindo um leve aperto, isso parece que o deixou em alerta.
Por um segundo, seus dedos enluvados hesitaram no ar. Como se ele fosse tocar meu rosto, me analisando. Não, era imaginação minha. Mas ele apenas ajeitou a luva e a voz veio, mais seca que antes.
— Não me agradeça. Não espere nada de mim além de cobrança de interesses.
A frieza daquela afirmação congelou o ar. Mas aquela hesitação... o que foi aquilo?
— Você está na minha mansão — continuou ele, como se recitasse uma cláusula contratual. — Vou garantir que você melhore. Médicos, nutricionistas, terapeutas, ortopedistas, tudo o que uma pessoa... — ele me analisou dos pés à cabeça, e mesmo sem ver seus olhos, eu sentia o peso daquele exame — ...como você precisa. Depois que tudo isso for cumprido, veremos como você pode ser útil, caso contrário... bom... não preciso dizer.
— Seu interesse? — repeti, confusa, ao mesmo tempo que sentia um vento frio atravessar o quarto, fazendo-me tremer. — Que interesse você tanto fala?

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