cap.3
Meu coração deu um salto.
— Ele... ele disse isso? — perguntei, a voz falhando.
— Se não fosse, por que te diria?
Ela voltou a me limpar, mas agora o toque era mais cuidadoso. Menos mecânico.
E na minha mente, a confusão cresceu.
Quando finalmente terminaram e saíram, o silêncio voltou.
Sozinha.
Na cama enorme.
Com um cobertor azul-marinho que não era meu. E uma pergunta que não me largava.
Por que ele me salvou?
Um mês depois.
Trinta dias de agulhas, de exames, de mãos estranhas tocando seu corpo como se ele fosse um mapa de terras devastadas.
Trinta dias de fisioterapeutas girando suas articulações, de nutricionistas medindo porções, de enfermeiras anotando cada função do seu organismo em pranchetas que nunca lhe mostravam.
Maelyn perdeu a conta de quantas vezes desejou sumir e de quantas vezes saía dolorida de cada sessão.
Mas o corpo, por um golpe de sorte, respondia.
Primeiro vieram os dedos. Depois os pulsos. Os braços. As pernas começaram a tremer sob comando, depois a sustentar o peso por segundos, depois por minutos. Hoje, um mês depois de acordar naquele quarto de hóspedes que mais parecia uma cela de luxo, Maelyn conseguia andar.
Mal, mas conseguia.
Cada passo era uma negociação com a gravidade. O corpo pesava, doía, reclamava. Mas ela estava de pé. Sozinha. E isso, por enquanto, era o suficiente.
Os corredores da mansão Blackthone eram labirintos de opulência vazia.
Maelyn descobriu isso nas suas caminhadas matinais, quando o sol mal havia nascido e os empregados ainda não tinham começado suas rondas.
Ela aprendera a evitar horários de movimento. Aprendeu que naquela casa sua presença era mais tolerada do que bem-vinda.
Os empregados falavam pouco com ela. Quando falavam, era com uma reação gelada que doía mais que grosseria aberta.
A cara deles já dizia tudo.
*Ela não é nada. Está aqui por caridade. O senhor vai se livrar dela logo.*
Ela ouvia essas palavras mesmo quando ninguém as dizia.
O quarto que ocupava era outro motivo de ressentimento. Ela descobriu isso por acaso, numa noite em que não conseguiu dormir e ouviu duas empregadas conversando no corredor:
— Por que ela fica no quarto principal da matriarca? Aquele é o melhor depois do quarto do senhor.
— Dizem que o senhor deu ordens. Mas não entendo. Olha o estado dela... e até onde sei... ela não significa nada, ele nem mesmo suporta a encarar.
— Deve ser algum acordo. Dinheiro envolvido. Só pode.
Maelyn apertou os olhos na escuridão e fingiu não ouvir.
Ainda assim pensava:
*O melhor depois do quarto do senhor... Ele se importa tanto assim a ponto de me dar um dos melhores quartos? Mas ele não parece ser um homem que faz caridade.*
Ela não entendia. Cada vez que tentava decifrar Magnus Blackthone, encontrava apenas mais perguntas.
Naquela manhã, porém, algo estava diferente.
Maelyn acordou antes do sol, como de costume. Vestiu o roupão — um dos poucos itens que serviam em seu corpo, providenciado especialmente para ela — e começou sua caminhada lenta pelo corredor.
O silêncio era reconfortante. Por alguns minutos, ela podia fingir que era apenas uma visitante numa casa bonita, não uma prisioneira sob a custódia de um homem que raramente via, mas que sabia que estava sempre à espreita.
Porque Magnus Blackthone não aparecia.
Ela não o via desde aquele primeiro dia, quando acordou imóvel e ele estava lá, sentado na poltrona com seu chapéu e suas luvas. Ele simplesmente... sumiu. Os médicos vinham. Os enfermeiros. Os empregados. Mas ele, nunca.
Às vezes, Maelyn pensava que tinha sonhado com ele.
Mas aí lembrava da voz. Da frieza. Das palavras.
Mas a presença dele parecia vir à tona quando algumas coisas entravam em seu quarto.
E a flor branca na mesa de cabeceira? A empregada disse que o senhor pediu para colocar. Pequena, discreta, quase insignificante. Mas estava lá. Todos os dias. Uma nova, todas as manhãs.
Enquanto pensava em tudo isso, continuava caminhando pelo corredor.
O corredor era largo, forrado com um tapete persa que abafava os passos.
Maelyn andava devagar, uma mão na parede para apoio, quando uma porta à sua esquerda se abriu de repente.
Um homem saiu — o mesmo empregado jovem que estivera no quarto no primeiro dia, que desviou o olhar com nojo.
Ele carregava uma bandeja com restos de café, claramente vindo da copa. Não viu Maelyn. Não esperava ninguém ali tão cedo.
Ela tentou desviar, mas o corpo lento não respondeu a tempo.
O choque foi leve, um esbarrão de ombros, nada mais. Mas o empregado perdeu o equilíbrio, a bandeja voou, e as xícaras se estilhaçaram no chão com um barulho que pareceu explodir no silêncio da manhã.
— Desculpe! — Maelyn se apressou, estendendo a mão para ajudá-lo. — Eu não vi você saindo, me desculpe...
O homem olhou para ela.
E havia algo no olhar dele — um brilho de oportunidade — que fez o estômago de Maelyn se contrair.
— Não preciso da ajuda de uma mulher que maltrata os empregados da casa.
Ele se levantou sozinho, ignorando a mão estendida. Seus olhos desviaram rapidamente para o fundo do corredor, onde uma figura se movia nas sombras — que não houve tempo de Maelyn reconhecer.
A outra empregada. A mulher de meia-idade que a limpara no primeiro dia.
Maelyn sentiu o perigo antes de entendê-lo.

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