— Vai atender? — Talita perguntou, preocupada.
— Sim. Depois eu te ligo.
Encerrou a ligação, respirou fundo, atendeu a outra.
— Alô?
— Preciso de você esta noite.
Um nó se formou em sua garganta e ela engoliu em seco. Mesmo tendo ouvido aquela voz por poucos minutos durante a manhã, a reconheceu na mesma hora.
— Dante Alencar? — perguntou com a voz trêmula.
— Haverá um jantar importante. Esteja apresentável. — Ele continuou, sem sequer cumprimentá-la.
Ela fechou os olhos por um instante.
A forma como ele falava era como se estivesse dando ordens a uma funcionária, ou pior. Como se tivesse certeza de que seria obedecido.
— Eu não posso.
Do outro lado da linha, o silêncio durou alguns segundos, então ela aproveitou para continuar.
— Na verdade, precisamos conversar sobre isso. O que está fazendo é um erro. Sou a pior pessoa para ajudá-lo.
— Não vou repetir outra vez. — Falou com a mesma frieza de mais cedo. — Vou enviar um motorista para buscá-la às sete horas.
— Espera…
— Esteja pronta.
Antes que pudesse responder, a ligação foi encerrada. Ela ficou alguns segundos olhando para a tela do celular antes de tomar coragem para ligar para aquele número. A ligação chamou várias vezes, mas Dante não atendeu.
Recusando-se a desistir, salvou o número e tentou enviar uma mensagem pelo W******p. Foi inútil. A mensagem sequer foi visualizada.
— O que faço, meu Deus? — murmurou.
Ainda estava no meio da rua, sob um sol que parecia derreter tudo ao redor. Sua barriga roncava de fome, as mãos tremiam e a cabeça latejava. O dia mal havia começado e já estava afundada em problemas. Sem saber mais o que fazer, guardou o celular e seguiu para casa antes que acabasse surtando.
Assim que entrou pelo portão, foi recebida pela mãe, que correu em sua direção com os olhos brilhando de expectativa. Aquele brilho a desmontou por completo. Não podia desapontá-la. Sua mãe sonhava com aquela mudança de vida há anos, talvez até mais do que ela própria.
Enquanto via a filha mais velha e o mais novo indo por um caminho tortuoso, Maria colocava todas as suas esperanças na filha do meio. Desapontá-la seria o mesmo que admitir para a mãe que optar pelo caminho certo era a pior decisão do mundo.
— E aí, Fabi? Me diz, minha filha. Você conseguiu?
Passando a mão pelos cabelos ondulados, engoliu em seco mais uma vez e forçou um pequeno sorriso. Não podia dizer não. Não depois de todo o esforço que a mãe havia feito.
— Sim, mãe. Eu consegui.
No mesmo instante, os olhos da mãe se encheram de lágrimas. Maria levou as mãos à boca e começou a chorar no meio da sala simples.
— Eu sabia! Eu sabia que você conseguiria! — disse entre lágrimas.
Antes que Fabi pudesse falar qualquer coisa, a mãe a abraçou com força.
— Meu Deus, obrigada! — a mãe repetia. — Eu sabia que todo o esforço da minha filha seria recompensado um dia.
Fabi fechou os olhos. Se a mãe soubesse a verdade, provavelmente não estaria tão feliz.
— Eu estou tão orgulhosa de você, minha filha.
A culpa começou a crescer dentro dela, porque, naquele momento, não tinha coragem de contar que o estágio era a menor de suas preocupações.
O verdadeiro problema tinha nome, sobrenome e uma mania irritante de dar ordens.
— Sei que está, mãe, mas tenha ciência de uma coisa, mesmo que eu não conseguisse esse estágio, eu daria um jeito de conseguir outra coisa.
— Eu sei, querida, mas um emprego no fórum é algo tão importante. Sei que isso vai te ajudar em sua carreira.
Ela concordou com a mãe e se afastou um pouco do abraço. Estava com fome e, além disso, tinha um compromisso que definitivamente não estava em seus planos.

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