— Claro.
A voz masculina fez Genebra paralisar.
Ela se virou e viu Gaspar ocupado na cozinha.
O avental azul florido, que a diarista costumava usar, parecia minúsculo e cômico no corpo dele.
— O café está quase pronto. Sente-se à mesa e espere um pouco. — Gaspar curvou os lábios num sorriso atraente.
A cena doméstica, banhada pela luz da manhã, cobria-o com um brilho dourado, tornando-o suave e real.
Genebra não sabia cozinhar e fantasiara inúmeras vezes sobre sua vida de casada: Gaspar cozinhando, ela arrumando flores.
A vida de um casal comum, personificada neles.
Mas tudo isso, até aquele momento, fora apenas ilusão.
Justo quando ela decidira desistir, o destino lhe oferecia aquilo de repente.
Deus realmente gostava de pregar peças.
Vendo Genebra imóvel, Gaspar suspirou, puxou-a para sentar à mesa e serviu-lhe um copo d'água.
Voltou à cozinha e trouxe o café da manhã.
— A senhora já tinha deixado tudo pronto, eu só esquentei. Levo o crédito indevido. — Gaspar arrumou os pratos. — Prove.
Genebra observou a mesa. Ingredientes e pratos comuns.
Seus olhos aqueceram inesperadamente.
Riu de si mesma internamente. Genebra, ah, Genebra. Até essa migalha de favor te comove.
Realmente, a carência era grande.
Ela respirou fundo, reprimindo a umidade nos olhos.
Começou a comer sem expressão.
O sabor delicioso despertou seu paladar adormecido.
Um bom café da manhã realmente melhorava o humor.
Genebra não era exceção. Ela ergueu os olhos para Gaspar, forçou um sorriso gentil, mas suas palavras carregavam pesar.
— Se isso tivesse acontecido há seis meses, teria sido perfeito.
Naquela época, Débora ainda não estava grávida, e ela ainda tinha esperanças com Gaspar.
Pensando melhor, talvez ela nem tivesse adoecido.
E seu bebê poderia estar vivo.
Mas a vida não tem "e se".
O arrependimento é a norma.

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