O sol da manhã invadia o salão principal da mansão Moretti, refletindo nos lustres de cristal que ainda pareciam vibrar com o eco da noite anterior. O clima, à primeira vista, era de pura celebração. Dante Moretti circulava com um charuto apagado entre os dedos, com um sorriso que mal cabia no rosto, enquanto sua esposa, Stella, revisava os recortes de jornais que já elogiavam o evento. Ambos transbordavam orgulho: a festa de recepção para a posse de Nicola como o novo CEO do Grupo Moretti havia sido um sucesso absoluto perante a alta sociedade.
No entanto, no canto oposto da sala, a atmosfera era de tempestade iminente. Sentado em sua imponente poltrona de couro, o patriarca da família, Donato Moretti, quebrava o silêncio com uma voz que misturava desprezo e fúria contida. O alvo de seu olhar gélido era um detalhe específico da noite anterior. Ou melhor, uma pessoa: Caterina.
— A festa foi maravilhosa, admito.
Começou Donato, a voz áspera arrastando-se pelo ambiente, silenciando os risos de Dante e Stella.
— A equipe de Relações Públicas do Grupo Mancini está de parabéns. São profissionais louváveis, impecáveis.
O velho fez uma pausa dramática. Seus olhos, semicerrados e injetados, cravaram-se no neto como lâminas.
— Mas até agora há algo que engasgou na minha garganta, Nicola. O que aquela desavergonhada da sua amante estava fazendo na festa da nossa empresa? Já não basta o que vocês dois fizeram no passado com a pobre Gina?
O nome de Gina ecoou como um estapeamento na sala. Donato bateu com o punho no braço da poltrona.
— A sua esposa morreu de desgosto! Definhou vendo você viajar para a Suíça, cruzando o oceano para se deitar com Caterina pelas costas de todos!
Nicola, que até então mantinha a postura impecável de um CEO, sentiu o sangue ferver. Ele respirou fundo, tentando manter o controle, mas o maxilar trancado denunciava sua indignação. Ele deu um passo à frente, encarando o avô de igual para igual.
— Vovô, chega.
Disse Nicola, a voz firme, embora carregada de uma dor antiga.
— Eu amo a Caterina. Sempre amei, e o senhor sabe disso. A Gina se casou comigo sabendo perfeitamente que o meu coração pertencia à irmã caçula dela. Aquele casamento não foi uma escolha, foi uma imposição. Foi um capricho forçado pelo senhor para unir sobrenomes, mas para o senhor, a filha ilegítima não era digna de ser minha esposa!
Nicola deu as costas por um segundo, passando a mão pelo cabelo, antes de se virar novamente, os olhos brilhando de revolta.
— Eu tentei, vovô! Eu juro que tentei viver em harmonia com a Gina no primeiro ano. Mas eu estava sufocando. Eu estava desesperado para saber se a Caterina estava bem, como estava vivendo naquele exílio na Suíça para onde vocês a mandaram!
O rosto de Donato ficou vermelho, as veias de seu pescoço saltando com a audácia do neto.
— Você traiu a sua esposa com a própria irmã dela!

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