— A dona Gioconda foi despachada para o inventário lá no subsolo. Ordem direta da presidência, parece que o RH resolveu dar uma rasteira nela hoje. Temos a tarde só para nós.
Ao lado, Antonella, que devorava um pão com manteiga com os olhos fixos no celular, deu um tapinha na mesa para chamar a atenção.
— Falando em presidência... Lucca, você viu as fofocas? Ficou sabendo do noivado do bonitão, o Henry Salvattore, com a Chiara Valenti?
Henry sentiu o estômago dar um nó. Ele arqueou uma sobrancelha, tentando manter a fachada de indiferença.
— Noivado?
Perguntou, com uma curiosidade genuína, mas tingida de confusão.
— Não sabia, não. E por que o povo está falando isso por aí?
— Menino, está em todos os portais!
Antonella virou a tela do celular para ele.
Dizem que sábado passado teve um jantar secreto na mansão dos Valenti. O Henry foi para lá exclusivamente para pedir a mão da Chiara. Estão chamando de "o casamento do século".
Henry olhou para a tela do celular de Antonella. Ele sentiu uma pontada de irritação; a mídia conseguia fabricar um romance inteiro a partir de sombras e poeira.
Zoe soltou um suspiro longo, pegando uma caneca de chá e olhando para o vazio por um momento.
— Ah, Antonella, deixa isso pra lá!
Zoe interrompeu, o tom de voz mudando para algo mais sóbrio.
— Não deveríamos perder nosso tempo falando do chefe. Ele vive em um mundo que não é o nosso, Lucca.
Henry fixou o olhar nela, sentindo o peso das palavras.
— O que quer dizer com isso?
Ele perguntou suavemente.
— É um mundo de poder e dinheiro.
Zoe continuou, dando de ombros com uma ponta de melancolia.
_Para pessoas como ele, relacionamentos são contratos e sentimentos são acessórios. É tudo para crescer mais o império. A gente aqui vive de verdade; eles vivem de aparência.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor para Henry. Ali, sentado naquela copa humilde como Lucca, ele nunca se sentira tão real e, ao mesmo tempo, tão distante da mulher que o fazia querer abandonar a presidência para sempre.
— E você, Zoe?
Henry perguntou, encostando-se casualmente no balcão de granito, tentando adotar a postura desleixada que imaginava ser a de Lucca.
— Onde você costuma almoçar? Tem algum lugar bom aqui por perto ou você foge do prédio?
Zoe soltou um riso curto, ajeitando uma pilha de guardanapos.
— Fugir? Quem me dera, Lucca. A equipe da copa almoça aqui. A empresa até tem aquele restaurante enorme bem ao lado do prédio, mas a gente recebe a comida aqui.
Antonella, que terminava de organizar as bandejas de prata, entrou na conversa sem desviar os olhos do trabalho:
— É bem melhor assim, acredite. A gente acha mais confortável almoçar no nosso canto. O restaurante do lado recebe todos os funcionários da Salvattore, é uma confusão de gente, barulho de pratos, conversas de escritório...
Ela fez uma pausa dramática.
— Sem contar que a presidência e os diretores almoçam na área VIP restrita. É outro mundo lá dentro, longe dos olhares dos mortais.

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