COBRANÇAS
Os corredores envidraçados da Salvattore tornaram-se o palco de um jogo de sombras silencioso. Durante os dois primeiros meses da parceria entre o Grupo Salvattore e o Grupo Taylor, o ambiente na presidência era carregado por uma eletricidade que ninguém conseguia nomear, mas que todos sentiam ao cruzar a porta do gabinete de Henry.
Para o mundo exterior, tratava-se apenas de dois titãs da indústria colaborando. Mas, entre quatro paredes, a dinâmica era um campo minado:
Karen Taylor era a personificação da eficiência fria. Como representante do Grupo Taylor, ela se instalou na rotina de Henry com a precisão de um algoritmo. No entanto, ela ergueu uma barreira invisível, mas intransponível, entre Henry e sua esposa, Zoe. Karen evitava encontros sociais, recusava jantares de cortesia e limitava-se estritamente ao papel de consultora técnica sempre que Zoe estava por perto. Era uma tática de preservação, ou talvez, de contenção.
Zoe, que trabalhava no Departamento Financeiro, frequentemente subia à presidência para levar relatórios ou simplesmente para um breve beijo de boa sorte no marido. Com sua natureza doce e genuína, ela não via malícia nos olhos de Karen. Zoe entrava no gabinete com um sorriso, cumprimentando Karen com uma cordialidade que fazia o estômago de Henry dá voltas.
Enquanto Zoe falava sobre o orçamento trimestral ou planos para o final de semana, o passado secreto entre Henry e Karen ainda era desconhecido para Zoe, a história de um namoro intenso e mal resolvido, pairava no ar como fumaça.
Para Henry Salvattore, aqueles meses foram um exercício de resistência emocional. Manter a postura de presidente imponente enquanto sua ex-namorada ditava diretrizes de negócios a poucos metros de sua esposa era exaustivo.
O contato com Karen era constante: Reuniões de diretoria, conferências até tarde da noite e trocas de e-mails que nunca dormiam. Cada vez que Karen ajustava um gráfico ou comentava sobre uma estratégia, Henry sentia o peso do que já foram um para o outro. A ingenuidade de Zoe, em vez de acalmá-lo, apenas aumentava sua tensão; ele se sentia um impostor em seu próprio trono, guardando um segredo que ameaçava a paz da mulher que amava.
A convivência transformou o escritório em um labirinto. Karen permanecia profissional e distante, Zoe permanecia luz e confiança, e Henry, no centro de tudo, sentia que o tempo era uma corda esticada que poderia romper a qualquer momento.
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A noite, o tilintar dos talheres de prata contra a porcelana chinesa era o único som que preenchia a suntuosa sala de jantar da mansão Salvattore. O ar estava carregado, denso o suficiente para sufocar qualquer um naquela mesa.
Lorenzo, posicionado à cabeceira como um monarca em sua cadeira de rodas, limpou os lábios com o guardanapo de linho antes de lançar o primeiro dardo da noite.
— Seis meses, Henry...
A voz de Lorenzo saiu rouca, mas carregada de uma autoridade gélida.
— Seis meses de casamento e nada de gravidez. No meu tempo, um Salvattore já teria garantido a linhagem antes mesmo da lua de mel terminar. O que está acontecendo? A sua esposa é feita de vidro ou falta competência a você?
Zoe sentiu o sangue fugir do rosto. Ela abaixou a cabeça imediatamente, fixando o olhar em seu prato quase intocado. O peso do sobrenome Salvattore parecia esmagar seus ombros. Ela não era uma pessoa ali; era apenas um "frasco" que Lorenzo considerava defeituoso por ainda estar vazio.
Ao sentir o tremor discreto nas mãos de Zoe, Henry largou o garfo. O som metálico ecoou como um tiro.
— Já chega, vovô!

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