Guilherme
Quando acordei naquela manhã, estava certo de que seria só mais um dia comum de visitas, risadas e reuniões de família. Desci as escadas, ainda meio sonolento, e percebi que havia algo preso no portão. Uma folha de papel dobrada, simples, mas que carregava um detalhe que não passou despercebido: um perfume suave, doce, que ficou no ar assim que toquei.
Curioso, desdobrei o papel ali mesmo, de pé, sentindo um aperto estranho no peito antes mesmo de ler qualquer palavra.
"Querido Príncipe, você não sabe, mas hoje você foi meu herói. Obrigada por existir. Eu te admiro mais do que qualquer um nesse mundo..."
Li. Reli. Três... quatro vezes.
No começo, sorri achando que fosse alguma brincadeira dos meus irmãos mais novos, sempre prontos para me sacanear. Mas, conforme fui absorvendo cada palavra, percebi que aquilo não era uma piada. Era sincero. Puro.
Senti o peito apertar de um jeito bom, estranho, diferente. Alguém, em algum canto dessa cidadezinha, me via com olhos que nem eu sabia merecer.
Guardei a carta no bolso, sorrindo sozinho, e durante aquele dia inteiro, vez ou outra, colocava a mão ali, só pra ter certeza de que ela ainda estava comigo.
E achei que fosse só isso. Um gesto único. Uma coincidência bonita. Mas não...
No outro dia, lá estava ela de novo. Uma nova folha. Outro perfume. Outra letra um pouco tremida, mas cheia de cuidado.
"Príncipe... você nem imagina como seu sorriso ilumina tudo à sua volta. Você é especial. Nunca duvide disso."
Meu Deus... Quem era?
Comecei a observar mais. A olhar as pessoas na rua, nas praças, nas reuniões de família. Cada olhar que cruzava comigo me deixava desconfiado. Seria aquela garotinha tímida da casa ao lado? A moça da padaria? Alguém da escola, mesmo que eu nem frequentasse mais ali?
E assim se seguiu. Todos os dias, uma nova carta. Uma mais doce que a outra.
"Hoje eu te vi passando e meu coração quase saiu pela boca. Obrigada por existir no mesmo mundo que eu."
Aquilo foi me desconcertando de um jeito que eu não imaginava ser possível. Nunca fui de me achar alguém especial, apesar de ouvir elogios pela minha escolha, pelos estudos, pela vida fora daqui. Mas aquelas palavras... elas me tocavam de um jeito diferente. Eram sinceras. Limpas. Ingênuas.
Comecei a esperar. Sim... esperar pelas cartas. Era abrir os olhos de manhã, olhar pro portão e sorrir só de ver aquele papel dobradinho, com aquele cheiro inconfundível.
E, de repente, percebi que eu estava andando mais pela cidade, olhando rostos, tentando descobrir de onde vinha aquele carinho tão... raro.
Mas o tempo, esse cruel, não para pra ninguém. Minha passagem de volta estava marcada. Precisava retornar para Nova York. A universidade me esperava.
No meu último dia, ao acordar, encontrei uma carta diferente. O envelope era rosado, mais caprichado, e o perfume parecia mais forte, como se quem tivesse deixado quisesse que aquele cheiro nunca fosse esquecido.
"Príncipe... sei que você vai embora. E talvez nunca descubra quem eu sou. Mas quero que saiba que você fez meus dias mais felizes, só por existir. Você me inspira. E, mesmo de longe, sempre terá alguém aqui que te admira em silêncio."
Sentei no banco da varanda, segurei aquela carta com mais força do que qualquer outra coisa, e, pela primeira vez, senti um nó na garganta.
Sorri. Um sorriso triste, mas grato. E, antes de entrar pra terminar de arrumar minhas malas, guardei todas as cartas dentro de um dos meus livros. Não teria coragem de deixá-las pra trás.
Naquele dia, enquanto o avião decolava e a cidadezinha sumia pela janela, percebi que, de algum jeito, eu também estava deixando um pedaço do meu coração em Sacutinga.
Mal sabia eu... que aquele seria apenas o primeiro capítulo de uma história que a vida, caprichosa como é, ainda faria questão de continuar escrevendo.


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