O enorme pátio em frente à fábrica estava cheio de gente. Antonela espiou através das gotas de chuva na janela do lado do motorista, sem tocar no vidro. Depois de alguns segundos, ela desceu, sabendo o quanto seria difícil voltar a trabalhar com Henrico. Ela fazia aquilo por Adam, ela lutaria até o fim para ter o filho ao seu lado.
Caminhou pela rua esburacada com poças de lama e se aproximou. A maioria dos funcionários era masculina. O rosto dela tornou-se vermelho ao perceber os olhares todos voltados em sua direção. Eles não sabiam quem era ela, porque se soubessem, não teriam aberto a boca para galanteá-la tão descaradamente.
Assobios foram se intensificando conforme ela passava, até que a voz de Henrico rompeu a diversão.
— Vocês mal começaram a trabalhar e já querem ser demitidos? – O silêncio foi assustador – essa é Antonela Bianchi, minha filha e chefe de vocês. Qualquer um que a desrespeitar estará no olho da rua.
Ela olhou para o pai como se ele fosse maluco e depois entrou na fábrica com o rosto ardendo em vergonha, subindo a escadaria de ferro até se refugiar no velho escritório.
Henrico demorou para acompanhá-la. Ela se aproximou da mesa e viu alguns documentos espalhados pelo local. Observou que as dívidas da fábrica voltavam a se acumular. Quando Henrico entrou no escritório, pegou Antonela bisbilhotando as finanças da empresa.
Por um instante, o rosto dela ficou inexpressivo e, quando percebeu que Henrico não explodiria pela sua atitude, virou-se para ele, preocupada, e lhe disse.
— O senhor não pagou as dívidas da fábrica?
Houve uma pausa. Ele ficou olhando pela janela e lembrando, sem perceber, dos velhos tempos em que ele era considerado o rei dos chapéus. Não havia ninguém naquela cidade que já não tivesse comprado seus produtos. Bons tempos. Mas as coisas pareciam ter mudado, ninguém além dele usava chapéu. Era como se Henrico tivesse parado no tempo.
— Essas são as dívidas recentes – ele instalou os lábios, tirou o chapéu, o colocou no canto e levou o olhar até ela – eu tinha esperança de que as coisas voltassem ao normal. Contratei novos funcionários, liguei as máquinas, mas não consegui vender quase nada.
Ela poderia acrescentar que ele estava enganado, mas isso seria arriscado demais. Antonela sorriu como se concordasse com ele e decidiu então não mais tocar no assunto. Quando as coisas realmente apertassem e Henrico percebesse estar enganado, voltaria a procurá-la para ouvir mais sobre sua brilhante ideia.
— Como está o Adam? – Henrico perguntou na intenção de mudar de assunto.
— Eu não falei com ele hoje – o coração dela explodiu no peito. Nunca havia ficado tanto tempo longe do filho – mas ele está seguro com o pai.
Henrico concordava com ela nesse sentido e sabia de toda a história. Percebeu então que Antonela não queria prolongar o assunto, por mais que ele tentasse se reaproximar dela, as coisas ainda pareciam impossíveis. Ela pegou alguns documentos da mesa dele e se afastou, sentando-se no sofá.

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