A chamada não foi atendida.
Pelo telefone só se ouviu o toque e logo a voz mecânica da mulher do sistema de mensagem antes que a ligação fosse desligada.
Beatriz tirou o celular do ouvido e o coração dela afundou naquele momento. Talvez estivesse imaginando coisas?
Outra possibilidade é que Maurício tivesse visto que era ela ligando, mas optou por não atender.
Ela bloqueou a tela do celular e o guardou de volta no bolso, pensativa.
Será que era Lorenzo que não queria ser descoberto ou será que desde o começo ela tinha entendido tudo errado?
Eles nem eram a mesma pessoa, apenas coincidentemente tinham um rosto parecido, e ela, feito uma criança teimosa, cismava em querer forçar uma conexão entre os dois.
De repente, ela ficou sem entender por que ligava tanto para isso.
Qual a diferença para ela se Maurício e Lorenzo eram ou não a mesma pessoa?
Ela não era nada do Maurício, e nem do Lorenzo.
Tinha a própria confusão de problemas para lidar, mas estava ali encucada com o mistério da identidade de dois homens.
Beatriz torceu os lábios, e o sorriso carregou um toque de autodepreciação.
Tinha sido muito estúpido ter feito aquela ligação há pouco.
Ela enxugou a água das mãos, jogou o papel na lixeira, e os olhos já haviam recuperado a mesma calma e o controle de sempre.
Ajeitou o decote da roupa e abriu a porta do banheiro, voltando para o salão.
Do outro lado, perto da janela do salão do clube.
Maurício segurava uma taça de champanhe e estava em pé de frente para a janela. Olhava o celular e a tela mostrava nitidamente uma chamada perdida.
Ele encarou aquele nome paralisado na tela e franziu as sobrancelhas levemente.
Por que Beatriz tinha ligado para ele logo naquela hora?
Ele olhou o reflexo desfocado no vidro da janela, massageando a base do nariz em desespero.
Ouviu passos de salto alto vindo lá de trás, cada vez mais perto.
Quando Beatriz se aproximou, Maurício estava de costas para ela perto da janela. Os dedos compridos alisavam de modo distraído a taça de champanhe. As costas do homem estavam retas e sua figura era alta e esbelta.
Mas uma tristeza melancólica inexplicável pairava sobre ele, algo muito diferente daquele Maurício que vivia sorrindo e ironizando tudo.
De repente, sentiu que aquele homem escondia um segredo. E era algo que não podia ser contado a ninguém.
Deu um passo à frente e tocou de leve em seu ombro. — Sr. Maurício, eu voltei.
Quando Maurício se virou para trás, aquela melancolia sutil pareceu ter sumido por completo.
Os lábios dele abriram naquele mesmo sorriso sem graça de sempre, e o canto dos olhos se ergueu, voltando a ser aquele misterioso Sr. Maurício de sempre.
— A Dra. Vaz não queria mais dançar e foi se esconder de mim no banheiro, não é?

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