Beatriz levantou a cabeça. Com a visão embaçada pelas lágrimas, cruzou o olhar com um par de olhos escuros.
Maurício Drumond estava parado ali, olhando para baixo. Naqueles olhos expressivos e amendoados, não havia mais o sorriso de costume de hoje.
Ela piscou os olhos, achando que estava enxergando mal. Pareceu haver um relance de frieza naquele olhar, mas, quando ela olhou de novo, ele já tinha voltado ao seu jeito normal. Os cantos dos lábios se curvaram ligeiramente, como se estivesse vendo algo engraçado.
— Chorando pelo quê? — Maurício falou devagar, no mesmo tom pausado, com um ar de deboche. Parecia não ligar para nada, descobrindo algo cômico ali.
Foi então que Beatriz percebeu as lágrimas em seu rosto. Abaixou a cabeça às pressas e limpou tudo com a manga de qualquer jeito. O movimento foi tão rápido que o botão do punho esbarrou no canto do olho. A dor a fez puxar o ar.
Ela virou o rosto para o lado, sem querer deixá-lo ver aquela aparência deplorável.
— Nada.
A voz de Beatriz saiu abafada e rouca do choro. Raramente ela mostrava um lado tão frágil aos outros, e ainda menos queria que alguém visse aquilo.
Maurício não disse nada. Virou de lado, abriu a porta do escritório e entrou.
Deu dois passos e viu que Beatriz não o tinha seguido. Parou e olhou para ela. O olhar foi bem claro: vem.
Beatriz hesitou por um momento, mas entrou. A porta se fechou atrás dela, isolando o barulho do corredor lá fora.
O escritório estava silencioso. Maurício foi até trás da mesa e se sentou. Encostou na cadeira e cruzou os longos dedos sobre a mesa, observando-a.
— Fale. Está chorando por quê?
Beatriz ficou parada diante da mesa de cabeça baixa, apertando a bainha da roupa com os dedos.
Quando saiu correndo, não tinha pensado em muita coisa. Mas agora, parada ali naquele escritório calmo, com Maurício sentado na frente, sentiu o quanto aquela cena de antes tinha sido vergonhosa.
Ela respirou fundo, engolindo o nó na garganta. Continuou sem querer contar a ele.
— Nada, não foi nada mesmo.
Maurício ergueu a sobrancelha e ficou quieto, apenas encarando-a. O olhar penetrante parecia capaz de atravessá-la, como se não houvesse lugar para se esconder.
Beatriz mordeu o lábio e tentou estabilizar a voz. — Eu não vou deixar as emoções interferirem no trabalho, Sr. Drumond.
— Eu não perguntei do trabalho. — A voz de Maurício saiu sem pressa. — Eu perguntei por que está chorando.
Beatriz ficou em silêncio por alguns segundos, com a imagem do que aconteceu no escritório passando pela mente.
Melissa segurando sua mão para bater no próprio rosto. Thiago invadindo, protegendo Melissa e ordenando desculpas sem nem perguntar, agarrando seu pulso.
Usando o contexto familiar com que ela mais se importava como uma lâmina para esfaqueá-la. O coração de Beatriz afundou. Ela sentia uma falta de ar ao pensar nisso agora. Então falou baixinho.
— Fui mordida por um bicho nojento, mas já melhorei.
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