Beatriz voltou, parou na porta do escritório de Maurício e respirou fundo, antes de levantar a mão e bater duas vezes.
— Entre. — Veio lá de dentro a voz grave, parecendo desprovida de qualquer calor.
Beatriz abriu a porta e entrou. Maurício estava sentado atrás da mesa, com um documento na mão, e não levantou a cabeça.
A luz do sol entrava pela janela de vidro até o chão e caía sobre ele, lançando uma sombra sobre a mesa.
Beatriz se aproximou, parou na frente dele, apertou os lábios, preparou-se mentalmente e falou devagar.
— Sr. Drumond, eu quero pedir demissão.
Maurício virou a página, com a voz serena, sem olhar para cima. — O motivo.
— Este lugar não combina comigo. — Beatriz usou a desculpa mais adequada para sair do emprego.
Maurício deu uma risada abafada e finalmente levantou a cabeça. Aqueles olhos a encararam, com um tom de brincadeira. — Não imaginava que alguma coisa te faria jogar a toalha. A Beatriz desiste tão fácil assim?
Os dedos de Beatriz apertaram a bainha da roupa. — Não...
Ela abriu a boca, mas a palavra travou na garganta. Não podia dizer que foi ameaçada, nem que Thiago havia usado Dona Regina para forçá-la a ir embora dali.
Ela tinha o costume de esconder os seus pontos fracos. Escondia em um lugar que ninguém enxergava. As palavras rolaram na língua, mas ela engoliu de volta.
Maurício a observou por uns segundos e abaixou a cabeça para continuar folheando os papéis. — Pense direito. O pedido de demissão leva um mês de trâmites. Durante esse tempo, quero que pense bem.
O tom dele tinha uma firmeza de quem compreendia toda a situação. Parecia ter certeza de que ela não iria embora, e de que, depois de passar por tantos lugares, ela acabaria concluindo que ele a tratava da melhor forma. O Grupo Drumond era o lugar pelo qual todos se descabelavam e, mesmo que o instituto dali não fosse o de melhor capacidade, todos os seguiam mesmo assim.
Beatriz ficou parada. Olhou o perfil do rosto dele abaixado folheando os documentos. Não falou mais nada, virou as costas, saiu e encostou a porta com suavidade.
A porta fechou e ela ficou no corredor. Respirou fundo e ergueu os olhos para o teto.
A claridade passava pelos vidros do corredor, ofuscando e irritando os olhos dela.
Beatriz piscou, para afastar a irritação. Por que nada dava certo de primeira? Por que tudo dava errado para o lado dela?
Voltou arrastando o corpo cansado até o laboratório. Amanda e a capacho não estavam lá. O espaço estava vazio.
Beatriz sentou, ligou o computador e continuou os relatórios que faltavam pela manhã.
Só com o foco voltado cem por cento para o trabalho ela conseguia esquecer o que aquelas pessoas lhe causavam. Nada importava mais que o trabalho.
Chegou o almoço e o refeitório começou a encher.
Beatriz levou a bandeja para um canto. Quando pegou os hashis, avistou duas pessoas entrando pela porta.
Thiago usava um terno cinza-escuro. Os óculos brilharam na claridade. Melissa caminhava do lado, já com um vestido azul-claro, os cabelos soltos nas costas e um sorriso doce no rosto. Os dois formavam um belo par.
Os dois passaram por ela. Thiago varreu o lugar com os olhos, os fixou em Beatriz por um instante e travou o passo.

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