— Onde você se meteu? Quando acordei no carro, você não estava mais lá. Fui trazida de volta por um motorista que eu nem conheço. Que confusão foi essa?
— Tivemos um pequeno contratempo, mas já estou indo pra casa. Aquele era o motorista do Estevão, não precisa se preocupar. — Ivete explicou enquanto erguia o braço para chamar um táxi.-
— Então vou ficar te esperando.
Ivete desligou e continuou tentando parar um carro.
— Pra onde vai? Eu te levo. — A voz de Estevão soou às suas costas.
Ivete parou por um segundo e respondeu friamente:
— Não quero incomodar.
O homem apenas se colocou ao lado da porta do passageiro, abriu-a e ficou ali parado, numa insistência silenciosa.
A ventania e a chuva voltaram a castigar a madrugada. O frio parecia ainda mais desolador naquele horário.
Os olhares dos dois se cruzaram em um silêncio tenso. Após cerca de vinte segundos de impasse, Ivete cedeu, caminhou até o carro e entrou no banco do passageiro.
Estevão assumiu a direção, jogou o sobretudo úmido no banco de trás e disse:
— O endereço.
Ivete informou o endereço sem nenhuma entonação. Ele deu a partida e saiu dali devagar.
Depois de um bom tempo, sem tirar os olhos da pista, perguntou:
— Quanto tempo você vai ficar dessa vez?
— Pouco tempo. — A resposta foi curta, direta e sem calor algum.
Ela sabia muito bem que os caminhos dos dois não voltariam a se cruzar de verdade, então não via motivo para rodeios.
Diante daquela frieza quase palpável, as mãos de Estevão apertaram o volante de forma quase imperceptível.
A chuva foi diminuindo. Ivete se reclinou no banco e passou a observar a paisagem urbana pela janela, mantendo a expressão serena.
Era a primeira vez, em dez anos desde a separação, que dividiam um espaço tão íntimo.
A viagem seguiu em absoluto silêncio. Estevão dirigia com atenção total, os traços fortes do perfil em evidência, envolto numa aura pesada que parecia manter qualquer um à distância.
Ele não tomou a iniciativa de puxar assunto, e Ivete fez o mesmo, permanecendo calada.
Quando chegaram ao destino, assim que o carro parou, Ivete se ajeitou no banco e estendeu a mão para soltar o cinto.
— Espera. — A voz grave ecoou dentro do veículo.
Ela interrompeu o movimento e virou o rosto para encará-lo, com as sobrancelhas levemente franzidas, mas sem dizer nada.
Sem esperar resposta, Estevão já tinha empurrado a porta e descido.
Segundos depois, a porta do lado do passageiro foi aberta por fora.
Ele estava de pé ao lado do carro, com postura inabalável e algumas gotas de chuva sobre a roupa. Baixando os olhos para fitá-la, falou num tom um pouco mais brando:
— A chuva deixou os degraus escorregadios. Cuidado.
Ivete puxou de leve o braço de Catarina. Alguém do nível dele dificilmente se misturaria com gente comum e, além disso, ela mesma não queria nenhum tipo de envolvimento. Ia interromper a amiga.
No entanto, o homem à sua frente respondeu:
— Pode ser.
Como se tivesse ouvido um absurdo, Ivete arregalou levemente os olhos para Estevão.
A maior qualidade de Catarina era saber ler as situações e aproveitar oportunidades, mas seu maior defeito era justamente não saber a hora de parar.
— E quando o senhor teria disponibilidade?
— Qualquer hora.
— Então posso pegar o seu WhatsApp? Assim fica mais fácil combinar.
Ivete ficou plantada no lugar, assistindo sem reação enquanto os dois trocavam contato.
Com os números salvos, Catarina agradeceu mais uma vez:
— Obrigada de novo por acompanhar a Ivete esta noite, Sr. Belmonte. A pista está perigosa com essa chuva, dirija com cuidado.
Depois disso, Catarina puxou Ivete pelo braço em direção à entrada.
O vento voltou a varrer a rua.
Estevão entrou no carro e ligou o pisca-alerta. O olhar ficou preso ao espelho retrovisor, acompanhando as duas silhuetas se afastando. Um turbilhão de emoções profundas agitava-se dentro dos olhos escuros dele.

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