Matteo:
Naquele tempo, os últimos traços do garoto que existiu em mim foram se apagando. O menino que perseguia a irmã caçula pelos jardins da mansão, que escondia o livro preferido da mãe sob o travesseiro como um amuleto de proteção, que acreditava nas histórias de finais felizes que Caterina contava… esse menino morreu. Para mim, finais felizes eram uma mentira distante, um eco que eu jamais ouviria. Só havia o fim, o vazio, a morte.
E com o passar dos anos, eu me afastei mais e mais daquele menino até que ele se apagou completamente. Era só uma sombra desbotada, um fantasma na memória. Foi então que Alessandro começou a me chamar de “O Falcão”.
Matar se tornou tão natural quanto respirar. Com cada vida que eu tirava, com cada missão concluída, a culpa e o remorso se dissolviam no fundo de uma mente agora treinada para sentir o alívio glacial da execução bem-sucedida. Fui absorvido pela irmandade; eles me respeitavam, e meus inimigos, me temiam. Alessandro não podia estar mais satisfeito. A cada missão, eu me tornava mais o que ele desejava, o herdeiro perfeito, a extensão fria da sua própria vingança calculada.
Pela Blackwood, por Alessandro e pela minha própria sede de vingança, apaguei quem eu era. Não havia mais nada dentro de mim além do Falcão.
O Falcão era tudo que Alessandro queria: uma sombra metódica e mortal, a lâmina escondida da irmandade, precisa e incansável. Era o soldado ideal, e minha reputação se espalhava por onde a escuridão se fazia presente. Em cada missão, meu corpo se movia com eficiência, e, a cada golpe, eu me tornava menos humano e mais a arma perfeita. O nome Matteo Romano se fundiu à própria Blackwood de um jeito que nem eu mesmo podia separar.
Tornei-me um homem que dançava com a morte, que desafiava o perigo com o coração frio. A morte era uma companheira silenciosa, rondando cada passo, e, estranhamente, o inferno parecia temer me tocar. Como se até as sombras hesitassem antes de se aproximar de mim.
No fundo, eu sabia: Matteo Romano não existia mais. Ele morrera naquela estrada anos antes. O que restava era o Falcão, um homem sem alma, cuja única missão era vingar-se.
Não havia nada além disso, apenas o vazio.


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