No restaurante requintado, o brilho das taças de cristal contrastava com a frieza que Suzi deixara na mesa. Daniel observava o vinho Bordeaux, enquanto Mariela, em seu vestido mostarda, tentava suavizar o clima.
— Que estranho... por que ninguém está tocando piano esta noite? — comentou ela, com uma curiosidade tingida de malícia.
Daniel ergueu uma sobrancelha, o pensamento voando para Alana. Ele presumiu que, após o "show" no escritório, ela tivesse voltado para casa para refletir. Sua distração foi interrompida pela chegada abrupta de Suzi, que serviu o prato com um sorriso que não chegava aos olhos.
No centro do luxuoso restaurante, o clima de romance forçado entre Daniel e Mariela foi subitamente interrompido por uma sugestão de prato que destoava completamente da sofisticação do menu francês.
— "Picadinho do Chef"? — Mariela arqueou as sobrancelhas, surpresa ao ver um prato tão comum em um ambiente de alta gastronomia. — Achei que fôssemos pedir o Filet Mignon ao Poivre.
Suzi, que servia a mesa pessoalmente, não desviou o olhar de Daniel nem por um segundo. Seu tom era afiado como uma lâmina:
— O Picadinho é o prato ideal para esta mesa, Mariela — disparou ela. — Afinal, é o que sobra quando se corta um coração em pedaços e tenta-se misturar com crueldade, traição e conluio. É um prato que exige estômago forte. Bom apetite para vocês.
A temperatura no local pareceu cair dez graus instantaneamente. O silêncio que se seguiu foi cortante, pesado o suficiente para sufocar qualquer conversa. Daniel, no entanto, manteve sua máscara de gelo, recusando-se a demonstrar qualquer abalo.
Nesse momento, o celular sobre a mesa brilhou. O visor mostrava o nome de Alana. Daniel olhou para o aparelho com um sorriso zombeteiro e, com um movimento lento e deliberado, recusou a chamada. Para ele, a insistência de Alana no telefone era apenas um sinal de desespero, uma prova de que ela já havia se arrependido de pedir o divórcio e estava "rendida" à solidão.
Ignorando o flerte óbvio de Mariela, que observava a cena com uma satisfação mal disfarçada, Daniel abriu a carteira e retirou um cartão adicional preto, deslizando-o sobre a mesa para a vice-presidente.
— Um brinde oficial ao seu esforço pela empresa — disse ele, tratando o presente como um mero bônus corporativo, enquanto, no fundo, usava o gesto para reafirmar que Alana não fazia mais parte de suas prioridades.
No entanto, a bolha de arrogância estourou quando Freitas ligou em pânico:
— Sr. Daniel! A senhora me ligou... a casa antiga está pegando fogo e a vovó se queimou! Ela exige que o senhor vá agora!
O mundo de Daniel parou. O desprezo deu lugar ao pavor. Ele abandonou o jantar e Mariela, lançando o Maybach pelas estradas da montanha em uma velocidade suicida.
Enquanto isso, Alana saltava do táxi na propriedade da família Craig. Seus pulmões ardiam e o cheiro de fumaça ainda pairava no ar, mas, para sua surpresa, a vila estava intacta e banhada por uma luz quente e acolhedora. Ela correu para a sala, esperando encontrar o caos, mas deparou-se com a Vovó Ofelia Craig, de oitenta anos, sentada calmamente em sua poltrona, assistindo TV e comendo sementes de girassol.
— Alana, querida! Você voltou! Venha cá, sente-se comigo — acenou a idosa, com a serenidade de quem não tem uma preocupação no mundo.

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