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Possessivo: A Babá Que Ele Nunca Deveria Tocar romance Capítulo 5

Ela parou, sem virar o corpo. Só a cabeça, por cima do ombro.

— O que foi?

Apontei para o chão.

— Vamos limpar isso aqui, né? É o certo a fazer.

Ela piscou. Duas vezes. Como se eu tivesse acabado de pedir pra ela resolver uma equação de física quântica.

Aquele choque bonitinho tomou conta da cara dela, mas não discutiu.

Só pegou uma caixinha de bombinhas dentro da gaveta, então ela já estava preparada mesmo, a espertinha, e se agachou perto da porta.

Me abaixei junto, ajudando a catar cada uma, com cuidado.

— Essa foi boa — comentei, colocando duas bombinhas na caixinha. — Se fosse outra pessoa, provavelmente teria levado um susto daqueles.

Laura levantou os olhos devagar, só por cima dos cílios. Um olhar que perguntava sem falar: como você me venceu?

Mas ela permaneceu calada.

Eu sorri. Um sorriso calmo, gentil, sem provocar.

— Bora lá, o professor já chegou.

Ela fechou a caixinha, ficou de pé e saiu andando… mas dessa vez, não tão fria quanto antes. Havia uma coisinha ali. Uma rachadurazinha naquelas muralhas dela.

Quando descemos, Laura caminhou até o piano como se estivesse indo para um trono, ou pra um ringue, não sei, e o professor a cumprimentou com aquela calma infinita que só professores de música parecem ter.

Eu me mantive mais atrás, meio quieta, ainda tentando entender meu papel exato ali.

— Boa tarde, Laura — ele disse, sorrindo.

Ela respondeu com um aceno mínimo de cabeça.

— E você deve ser a Mariana. Prazer. — Ele me cumprimentou.

— Prazer — respondi, devolvendo o sorriso.

Laura sentou no banco, ajeitou as costas com aquela postura impecável que eu jamais tive aos seis anos, e colocou as mãos nas teclas.

O professor se sentou ao lado, abrindo uma partitura.

A primeira nota soou e eu senti um arrepio. Era tão… bonito. Mesmo simples, mesmo infantil.

Eu sempre gostei de piano, mas nunca cheguei nem perto de um.

E ver aquelas mãozinhas pequenas tocando daquele jeito… meu coração ficou quentinho.

Laura era incrível. Concentrada, determinada, totalmente mergulhada ali. O professor ia guiando:

— Aqui, Laura… isso… agora muda para essa nota.

Mas ela não mudou. Continuou apertando a mesma tecla, repetidamente, com uma teimosia que dava pra ver até nas orelhas.

— Laura — o professor falou de novo, mais gentil ainda — essa nota aqui não entra agora. Troque para…

Nada. A criatura ignorou. Continuou tocando o mesmo “plim”, como se quisesse provar alguma coisa.

Eu suspirei. Era o mesmo tipo de teimosia que alguém muito mimado costuma carregar no bolso.

Me aproximei devagar, apoiando a mão no encosto do banco.

— Laura. — Minha voz saiu firme, mas não grossa. — Obedece o professor.

Ela nem piscou. Continuou tocando a bendita nota.

Então eu me abaixei um pouco, ficando mais perto do seu ouvido.

— Eu nunca ouvi ninguém tocar piano de verdade — confessei, baixinho, do jeito que criança costuma prestar atenção. — E estava achando tão lindo…

Ela parou, seus dedos ficaram suspensos no ar e então virou o rosto na minha direção, me olhando como se estivesse tentando decifrar alguma coisa em mim.

Por três segundos inteiros ela me encarou.

Depois olhou para o professor.

E, enfim, tirou os dedos da nota errada.

O professor soltou um suspiro silencioso, daqueles que só quem está muito agradecido solta, e me lançou um olhar rápido de gratidão. Eu respondi com um sorriso pequeno, meio “imagina”.

Ele voltou a orientar Laura, e dessa vez ela seguiu direitinho, com os dedinhos deslizando de novo pelas teclas, produzindo aquela melodia suave que enchia a sala.

***

Quando deu a hora do jantar, ajudei Laura a se arrumar e a levei até aquela mesa enorme, enorme mesmo, parecia cenário de novela de gente rica.

Coloquei o prato dela à frente e fiquei de pé por alguns segundos, olhando tudo aquilo… tão bonito e tão vazio ao mesmo tempo.

Laura ficou encarando a cadeira da cabeceira, que com certeza deveria ser do seu pai. Depois virou o rostinho pra mim.

— Meu pai ainda tá viajando? — ela perguntou baixinho.

Sua voz tinha uma dor que… nossa. Doeu em mim também.

Assenti devagar.

— Ele volta sexta, tá? — falei suave, tentando não parecer tão tocada quanto eu estava.

Ela só inclinou a cabeça e começou a comer no maior silêncio do mundo. Cada garfada parecia um esforço, como se a comida tivesse gosto de saudade.

Eu fiquei ali, atrás dela, com vontade de dizer mil coisas, mas sem poder.

E eu? Eu estava morrendo de fome. Minha barriga já fazia denúncia.

Quando ela terminou, perguntei:

Cap.5 1

Cap.5 2

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