Fechei os olhos devagar, contando até três. Tentando não perder o resto de calma que eu tinha.
Quando abri, Laura estava parada, com as mãos cobrindo a boca em choque.
E a mulher, Mariana, olhava para mim como se tivesse acabado de regar um tigre faminto por engano. A mangueira continuava jorrando para o chão, criando uma poça entre nós.
O silêncio durou meio segundo.
— O que diabos está acontecendo aqui? — minha voz saiu baixa, dura, fria o suficiente para qualquer adulto tremer.
Laura congelou.
Mariana rapidamente desligou a mangueira e deu um passo.
— Senhor, me desculpa, eu não vi que o senhor est—
— Pare. — cortei, sem levantar a voz, mas o suficiente para fazê-la travar.
Ela parou no mesmo instante.
Observei a sua figura. Rosto vermelho da correria, camiseta grudada no corpo, cabelo bagunçado, respiração acelerada. Uma presença completamente fora do padrão da minha casa, do meu ambiente, da minha rotina.
— Arrume suas coisas e vá embora da minha casa. — deixei claro, direto, sem perder tempo.
Ela piscou. Como se a frase não fizesse sentido.
— Foi só água — disse, erguendo uma sobrancelha, como se estivesse falando com alguém no mesmo nível.
Minha paciência acabou naquele instante.
— Cale a boca. — precisei repetir, mais firme.
Suas sobrancelhas subiu mais um pouco e vi o brilho de desafio em seus olhos, e soube que aquela mulher tinha o tipo de personalidade que não levava desaforo para casa.
Ia retrucar. Eu sabia.
Mas antes que fizesse isso…
Um chorinho baixo cortou o ar.
Laura, virei imediatamente quando ela correu direto para Mariana, se agarrando às suas pernas, como se estivesse sendo arrancada de alguém importante.
— Ela não pode ir embola! — Laura chorou, com a voz falhando de soluço enquanto escondia o rosto na roupa molhada da babá.
E eu simplesmente… travei.
Minha filha, chorando. Implorando por alguém.
Laura nunca fez isso. Nunca pediu por nenhuma babá ou se importou o suficiente.
E agora estava ali, grudada naquela mulher ruiva como se fosse parte dela.
Eu olhei para Mariana e depois para a minha filha, sentindo algo estranho que não conseguia nem nomear.
Como, em menos de dois dias, essa desconhecida conseguiu aquilo que eu não conseguia desde o acidente?
Fazer Laura… rir, correr, brincar?
E por um miserável segundo, eu fiquei sem reação. Sem resposta. Sem uma única palavra fria e dura pra preencher o silêncio.
E eu… detesto não ter palavras.
****
(Visão de Mariana)
Quando ouvi a voz dele, gelada, profunda e irritada… Meu estômago simplesmente virou.
Mas Laura… ah, Laura não ouviu nem metade.
— Você semple me deixa sozinha! — ela chorou, agarrando minhas pernas com força. — A Mali é legal! Eu quero a Mali!
E então, a bomba.
— Você é chato!
Eu arregalei os olhos na hora.
— Laura! — me abaixei rápido, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Ei… você nunca deve chamar seu pai disso.
Ela chorava tão forte que o lábio tremia.
— Mas ele é! — ela sussurrou. — Ele não quer que você fique…
Eu suspirei fundo. Doeu.
Mas mantive os olhos no dela.
— O seu pai só quer o seu bem, meu amor. Mesmo quando parece o contrário e ainda que você fique chateada, você não pode desrespeitar ele assim. Não pode chamá-lo de chato. Entendeu?
Ela piscou algumas vezes, o biquinho crescendo no rosto molhado e assentiu devagar.
— Mas eu não quelo que você vai embola…
Isso quase me desmontou. Laura então se virou, ainda fungando, e caminhou até o pai, estendendo os bracinhos pra ele.
Rodrigo hesitou, só por um segundo, mas a pegou no colo. E aí Laura segurou o rosto dele com as duas mãos, pequenas, molhadas, desesperadas e implorou:
— Por favor… deixa a Mali ficar…

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