“Desculpa”, ele disse, levantando-se. “Eu preciso atender.”
Helena manteve a mão sobre a caixa.
“Dante.”
“É rápido.”
Ele saiu da sala antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.
Helena ficou sentada, imóvel, ouvindo a voz abafada dele no corredor. Não conseguia entender as palavras, apenas o tom baixo, contido. Depois veio o silêncio. Passos. Dante retornou com o celular ainda na mão e uma expressão que ela conhecia bem demais dos últimos meses: a expressão de um homem que já havia decidido ir embora, mas ainda procurava uma forma aceitável de abandonar a cena.
O coração de Helena começou a bater de outro jeito.
“Não”, ela disse, antes que ele falasse.
Dante suspirou.
“Helena…”
“Hoje não.”
Ele passou a mão pelo cabelo.
“Eu sei. Eu sei o que prometi. Mas aconteceu uma emergência.”
“Na empresa?”
Ele hesitou por uma fração de segundo.
“Sim.”
A fração bastou.
Helena sentiu algo dentro dela se contrair. Não era ainda desconfiança completa. Era pior. Era o instinto. Aquele aviso que o corpo dá antes que a mente tenha coragem de aceitar.
“Você prometeu que hoje seria nosso.”
“E é.”
Ela olhou para a mesa, para as velas, para a caixa que ele não abriu.
“Não parece.”
Dante se aproximou, tentando tocar sua mão, mas Helena não correspondeu.
“Eu volto rápido. Uma hora, no máximo. Existe um problema com um contrato, e se eu não resolver agora…”
“Alguém não pode resolver por você?”
“Não.”
“Nem no nosso aniversário?”
A irritação apareceu no rosto dele, pequena, mas clara.
“Não faz isso.”
Helena piscou, atingida.
“Isso o quê?”
“Não transforma uma emergência em prova de amor.”
Ela ficou em silêncio.
A frase entrou nela devagar, como veneno diluído. Não era a pior coisa que Dante poderia dizer, mas havia algo frio ali. Algo impaciente. Como se a decepção dela fosse um obstáculo, não uma dor legítima.
Ele pareceu perceber o peso das próprias palavras. Respirou fundo e suavizou a voz.
“Desculpa. Eu não quis falar assim.”
Helena desviou o olhar. Se olhasse por muito tempo para ele, talvez chorasse. E não queria chorar. Não antes de contar. Não enquanto segurava dentro de si uma notícia que merecia alegria.
Dante se agachou ao lado da cadeira dela.
“Amore, olha para mim.”
Ela olhou.


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