Entrar Via

Quando Eu Fui Embora, Ele Enlouqueceu romance Capítulo 4

A festa aconteceu no salão principal da cobertura onde Dante costumava receber investidores e pessoas influentes. Ele não poupou nada. Flores claras por todos os lados. Lustres acesos como constelações domesticadas. Música elegante, garçons circulando com taças finas, mesas pequenas cobertas por toalhas de linho e uma vista alta da cidade se espalhando pelas janelas de vidro.

Aos olhos dos convidados, era uma celebração romântica.

Para Helena, era uma reparação exposta.

Ela entrou ao lado de Dante usando um vestido branco perolado, discreto e caro, que caía sobre seu corpo com suavidade. O cabelo estava preso em um coque baixo, algumas mechas soltas emoldurando o rosto. Usava brincos pequenos de diamante, presente de Dante no quarto ano de casamento, e uma maquiagem leve que escondia parte da noite mal dormida.

Quando atravessaram o salão, todos sorriram.

“Que casal lindo.”

“Sete anos e parecem recém-casados.”

“Dante, você se superou.”

“Helena está deslumbrante.”

Ela sorria com educação, recebia abraços, cumprimentos, beijos no rosto. Por dentro, permanecia distante. Sentia-se como uma atriz dentro de uma cena que todos acreditavam ser real, menos ela.

Dante, ao contrário, parecia confortável.

Segurava sua cintura, ria com convidados, beijava sua têmpora quando alguém elogiava o casamento. De tempos em tempos, inclinava-se para dizer algo carinhoso ao ouvido dela.

“Você está perfeita.”

“Todos estão olhando para você.”

“Eu disse que faria algo bonito.”

Helena queria sentir gratidão. Queria mesmo. Mas cada gesto dele parecia cuidadosamente posicionado. Carinhos oferecidos em público têm outro peso quando faltam no privado. E, enquanto sorria para uma esposa que tentava perdoá-lo, Dante olhava o celular com uma frequência que começou a incomodá-la.

Não eram olhadas demoradas.

Eram rápidas.

Secretas.

Mas Helena via.

Por volta das dez da noite, Dante subiu ao pequeno palco improvisado no centro do salão. Um garçom entregou-lhe uma taça, e o burburinho diminuiu.

“Senhoras e senhores”, ele começou, com aquela voz segura que fazia investidores assinarem contratos e jornalistas sorrirem antes mesmo de formular perguntas. “Eu prometi a mim mesmo que não faria discurso, porque minha esposa sabe que sou péssimo quando preciso falar de sentimentos.”

Alguns convidados riram.

Helena permaneceu imóvel, com a taça de água entre os dedos.

Dante olhou para ela.

“Mas ontem eu cometi uma falha. Uma falha grande. Deixei que o trabalho atravessasse uma noite que deveria ser apenas nossa. E, como todos aqui sabem, Helena não é uma mulher que merece migalhas de atenção.”

Um murmúrio aprovador percorreu o salão.

Helena sentiu o rosto aquecer. Não de emoção. De exposição.

“Ela é a mulher que esteve ao meu lado nos últimos sete anos. A mulher que conhece minhas piores fases, meus defeitos, minhas ausências e, mesmo assim, continua sendo a melhor parte da minha vida.”

Aplausos suaves começaram antes mesmo de ele terminar.

Dante ergueu a taça.

“À minha esposa. Ao nosso casamento. E a tudo que ainda vamos viver.”

Todos brindaram.

Helena sorriu porque era isso que se esperava dela.

Dante desceu do palco sob aplausos, aproximou-se e a beijou diante de todos. O beijo foi casto, bonito, fotográfico. Digno de um casal admirado. Digno de comentários no dia seguinte. Digno de alguém que tentava transformar culpa em espetáculo.

Quando ele se afastou, Helena sentiu o cheiro dele.

O perfume habitual estava ali.

Mas havia outro por baixo.

Doce.

Jovem.

Floral demais.

Ela congelou por um instante.

Dante não percebeu, porque alguém o chamou. Um dos diretores da empresa se aproximou, pedindo que ele cumprimentasse um investidor italiano que havia acabado de chegar. Dante apertou a mão de Helena.

“Eu já volto.”

A mesma frase.

O corpo dela reagiu antes da mente.

“Claro”, ela disse.

Ele se afastou.

Helena ficou sozinha perto da mesa de bebidas. Uma das esposas de acionistas começou a falar sobre uma viagem a Capri, mas Helena mal ouviu. Seus olhos seguiram Dante pelo salão. Ele cumprimentou o investidor, trocou algumas palavras, sorriu. Depois, como se buscasse privacidade, caminhou para uma área lateral, próxima ao corredor que levava à varanda interna.

Um homem o acompanhou.

Rafael Conti.

Funcionário de confiança de Dante. Braço direito informal. Um homem discreto, sempre muito bem-vestido, com olhos atentos e uma lealdade quase servil. Helena já o vira em jantares, viagens de trabalho e reuniões sociais. Dante confiava nele para assuntos delicados.

Assuntos delicados.

Helena sentiu o estômago apertar.

Não sabia por que começou a andar. Talvez quisesse apenas respirar longe da festa. Talvez quisesse provar a si mesma que não havia nada. Talvez o perfume no colarinho dele, as mensagens escondidas, a ligação da noite anterior e a frase “não me espera acordada” tivessem se juntado dentro dela formando uma coragem amarga.

Ela deixou a taça sobre uma bandeja e seguiu na direção do corredor.

Não chegou a entrar.

Capítulo 4 — A Festa Perfeita 1

Capítulo 4 — A Festa Perfeita 2

Verify captcha to read the content.VERIFYCAPTCHA_LABEL

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Quando Eu Fui Embora, Ele Enlouqueceu