“Isso é doentio”, Rafael murmurou.
Dante não respondeu.
“Você está trocando sua esposa por uma fantasia dela.”
“Eu não estou trocando ninguém.”
“Não? Ontem você escolheu a fantasia.”
Helena abriu os olhos.
O rosto dela estava seco. O choro não vinha. Talvez o choque tivesse congelado as lágrimas antes que pudessem nascer.
Rafael baixou ainda mais a voz.
“E se Helena descobrir?”
Dante ficou alguns segundos em silêncio.
Depois disse, com uma segurança que a fez sentir náusea:
“Ela não vai descobrir. Helena confia em mim.”
A frase foi o golpe final.
Não a amante. Não o apelido. Não a juventude da outra. Não a comparação humilhante.
O que destruiu Helena foi ouvir Dante usar a confiança dela como escudo para continuar traindo.
Helena recuou um passo.
O salto quase fez barulho contra o piso, mas ela conseguiu se equilibrar. Virou-se antes que eles a vissem e caminhou de volta ao salão com o corpo inteiro funcionando por instinto. Sentia as luzes fortes demais, os perfumes doces demais, os sorrisos falsos demais. Alguém a chamou. Ela não ouviu. Outra pessoa tocou seu braço, perguntando se estava bem. Helena sorriu por reflexo.
“Só preciso de água.”
Pegou uma taça qualquer da bandeja e levou aos lábios, mas não bebeu.
Do outro lado do salão, uma mulher jovem entrou acompanhada por duas amigas.
Helena não a conhecia.
Mas algo nela chamou sua atenção.
Talvez fosse a juventude evidente. Talvez fosse o vestido amarelo-claro, delicado demais para uma festa adulta e sofisticada. Talvez fosse o cabelo solto, brilhante, caindo sobre os ombros. Ou talvez fosse o modo como Dante, ao voltar da varanda, parou por meio segundo ao vê-la.
Meio segundo.
Apenas isso.
Mas Helena viu.
A garota também viu Dante.
E sorriu.
Um sorriso pequeno, íntimo, seguro demais.
Helena sentiu a mão gelar ao redor da taça.
Canarinha.
A palavra voltou à sua mente com um peso cruel.
A garota atravessou o salão com passos leves, distribuindo cumprimentos como se pertencesse àquele mundo. Quando passou perto de Helena, seus olhos se encontraram.
A jovem sorriu.
Não com gentileza.


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