— O espetáculo terminou. Vamos embora.
Tainá lançou um último olhar calculista para Laura, atendeu ao chamado de Lúcio e levantou-se para segui-lo em direção à saída.
— Laura, como você chegou a esse estado?!
Assim que Martim Torres adentrou a delegacia, sua primeira visão foi a da filha, completamente desgrenhada e sendo contida pelo policial.
— Pai!
Laura tentou se jogar nos braços de Martim, mas foi prontamente arrastada para trás por dois oficiais.
Havia protocolos rígidos que precisavam ser respeitados quando um detento recebia familiares.
— Tainá, o que você está fazendo aqui?
Martim a fitou, os olhos arregalados de choque e incredulidade.
Desde que a garota rompera com a Família Torres, aquela era a primeira vez que se cruzavam.
Após quase três meses, Tainá não estava jogada na miséria como ele previra. Muito pelo contrário: ela irradiava uma sofisticação inegável, esbanjando uma aura de maturidade e eficiência afiada.
Tainá ignorou a presença dele e continuou caminhando a passos firmes.
Ele transferiu seu olhar inquisitivo para Lúcio, que acompanhava a jovem.
— Quem é ele?
Martim perguntou, com um vinco profundo de desagrado na testa.
— É o Senhor Índigo, o gerente geral da empresa de bicicletas.
O oficial informou com formalidade.
— E por que vocês dois estão juntos?
Martim voltou a fuzilar Tainá com os olhos.
— Olha só, Senhor Torres, o senhor não acha que está se metendo demais onde não é chamado?
— Filha rebelde, como ousa me chamar assim?!
O oficial ao lado franziu o cenho, claramente confuso. — Qual é o grau de parentesco de vocês?
— Ele é o meu ex-pai.
Martim abriu e fechou a boca sob o olhar afiado de Tainá, sem conseguir articular uma única resposta.
— Ex-pai? Que tipo de relação é essa?
O policial conhecia ex-marido e ex-esposa, mas "ex-pai" era uma novidade absoluta.
— Provavelmente, é algo parecido com um padrasto.
Lúcio interferiu calmamente, oferecendo uma explicação no lugar de Tainá.
— E quem disse que eu sou o padrasto dela?!
O patriarca dos Torres rugiu, com as veias do pescoço saltando de tanta raiva.
— Não, ele não tem a decência de ser um padrasto. Ele era meu pai no passado. Hoje, não há mais absolutamente nada entre nós.
Por não conseguir resolver o problema, o patrão secreto ainda teve a ousadia de chamar Adalberto de incompetente.
Do outro lado, Dona Viviane Lopes inundava seu celular com ligações frenéticas, interrogando-o sobre a demora e o andamento da confusão.
A vida dele estava um inferno. Ser um agente duplo era a tarefa mais desgastante do mundo.
Sem outra alternativa, Adalberto resolveu jogar limpo e narrou todos os absurdos que Laura havia cometido, descarregando o problema nas costas de Viviane.
Já que passavam os dias bajulando a garota de forma incondicional e cega, que tivessem o prazer de colher a tempestade.
Após as palavras do mordomo, Martim Torres sentiu como se tivesse levado um balde de água fria: eles precisavam desesperadamente daquele documento assinado pela empresa vítima.
— Esperem um segundo.
— Nós jamais ofereceremos acordo para delinquentes que contratam vândalos para destruir nossos bens.
Lúcio disparou a recusa por cima do ombro, sem diminuir o ritmo dos seus passos.
— Filha rebelde...
Tainá, por sua vez, parou e virou o pescoço levemente na direção dele.
— O que foi? Vai me implorar para convencê-lo?
— Senhorita Tainá...
Tainá ergueu a palma da mão num gesto brusco de parada. — Guarde suas súplicas. Eu não aceito tamanho fardo.
Em seguida, focou seu olhar cortante em Martim. — Lembro-me muito bem do dia em que fui embora. Você deixou claro que se eu morresse na rua, não seria problema seu.

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