— É verdade, tem caroço nesse angu — concordou Vagner.
— Como pode existir uma mulher assim no mundo? — indignou-se Suzi, o coração apertado.
Ela mesma havia criado o filho sozinha, trabalhando arduamente como governanta na Família Torres depois de perder o marido. Sabia bem o que era a luta.
— Ana, que tal você se tornar minha afilhada? Quando chegar a hora da universidade, a madrinha aqui paga os seus estudos.
— Não sei se é uma boa ideia... — murmurou Ana, incerta, virando o rosto para Tainá, sua âncora nos momentos difíceis.
Para Ana, as decisões da amiga eram sempre o norte correto a seguir.
— Suzi, você ainda tem que ajudar o Jonas a comprar um apartamento e se casar — pontuou Tainá. Ela não queria sobrecarregar a mulher; criar um filho sozinha já era um feito gigantesco, e assumir as despesas estudantis de Ana seria um fardo pesado demais.
Embora fosse amiga íntima de Ana, Tainá priorizava o bem-estar de Suzi.
Ainda assim, a palavra final pertencia a elas. Tainá estava apenas oferecendo sua perspectiva.
Ana concordou suavemente: — Preciso conversar com o meu pai sobre isso primeiro.
Já era tarde. Tainá entregou os celulares usados de Vagner e Lino para a amiga: — Estes são os antigos aparelhos dos dois grandalhões aqui. Um para você e outro para o seu pai.
Com os celulares em mãos, a comunicação ficaria mais fácil e, em caso de perigo, eles teriam como ligar para a polícia. O único revés era o acréscimo de uma nova despesa mensal.
— Muito obrigada aos dois! Quanto devo por eles?
— Não precisa pagar nada, pode levar — disseram os seguranças em uníssono.
Mas Tainá conhecia Ana; ela detestava se aproveitar da caridade alheia.
— Dê dez reais a cada um, assim a conta fica acertada.
Seria um gesto simbólico. Se fossem avaliar pelo preço de mercado, apesar de usados, os aparelhos eram de boa marca e estavam em ótimo estado. Valeriam tranquilamente entre cinquenta e cem reais cada. Era claro que Vagner e Lino queriam apenas ajudar.
No dia seguinte, no colégio, Carlos Xavier se aproximou de Tainá: — Meu pai concordou em vender o edifício-sede, mas quer reverter todo o capital da venda em ações da empresa de bicicletas.
Foi preciso Vagner pigarrear ao seu lado para trazê-la de volta à realidade.
Com as ruas movimentadas e os ouvidos atentos, ela preferiu esperar chegar em casa para telefonar a Lúcio. Explicou a situação de Carlos Xavier e pediu que ele preparasse o advogado e avisasse o Mestre Lago.
As transferências de ações e a escritura do edifício seriam assinadas em instantes.
Após o almoço, enquanto se preparavam para ir ao escritório, o celular de Tainá tocou. Era Ana.
— Tainá, anote meu número novo. Ah, e o meu pai disse que prefere que eu não seja afilhada de ninguém. Por favor, peça desculpas à Suzi por mim.
O pai de Ana provavelmente vivera apavorado com as tramoias da ex-mulher, desenvolvendo um pavor enorme de que alguém tentasse lhe tomar a filha.
No fim das contas, foi melhor assim. Suzi não nadava em dinheiro e ainda não havia garantido o apartamento do filho; sua casa no interior era modesta.
Se não fosse pelo faro financeiro de Tainá no mercado de ações, as economias de Suzi mal dariam para a entrada do imóvel.
Tainá temia que a generosidade da governanta em ajudar Ana pudesse criar ressentimentos futuros com Jonas e sua futura esposa, gerando conflitos familiares desnecessários.

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