Depois de destilar sua lógica puramente pragmática, Tainá piscou os olhos, encarando o sócio: — Sou bem sensata, não acha?
Lúcio suspirou, virando o rosto para esconder um sorriso. — Sensata até demais.
Era uma maturidade assustadora. Ela esvaziava qualquer discurso paternalista que ele tentasse ensaiar.
— Lúcio, você namorou muito no colégio?
— Não.
— Ah... E agora, tem namorada?
— Por que uma criança está bisbilhotando a minha vida?
— Só estou preocupada com o seu futuro amoroso, ué.
— Sempre com essa cara de cubo de gelo... Parece intocável. Duvido que as garotas tenham coragem de se aproximar.
No banco da frente, Vagner e Lino riram mentalmente: *Se ele não fosse um cubo de gelo, teria um exército de fãs suspirando por ele.*
O gerente-geral do novo restaurante era Vicente Guedes, um profissional experiente recrutado por Lúcio nas primeiras levas de entrevistas.
Vicente havia sido o responsável por uma famosa rede de banquetes na Capital, mas fora boicotado e expulso após cruzar o caminho do sobrinho mimado do ex-chefe.
Ao ver os anúncios da Bicicleta Verde, não hesitou em se candidatar.
Na época, Lúcio farejou talento; alocou-o provisoriamente como assistente no departamento de tecnologia.
Quando a ideia do restaurante de *hot pot* tomou forma, o Mestre Lago mandou checar o passado de Vicente na Capital. As credenciais eram impecáveis e o talento real; então ele foi realocado para liderar o novo empreendimento gastronômico.
Seu único defeito era a retidão ferrenha, que às vezes soava áspera e atraía inimizades no mercado.
Mas ninguém é perfeito. Pelo menos a estrutura de governança da empresa de Tainá era meritocrática: quem produzisse, seria recompensado regiamente. Aquele ambiente blindava a integridade de Vicente.
Para contornar seu estilo rígido, Tainá escalou como seu vice alguém absurdamente carismático. Quando houvesse necessidade de jogo de cintura para lidar com figuras políticas ou clientes complexos, o vice assumiria as rédeas sociais, criando uma liderança em perfeito equilíbrio.
Vicente guiava os investidores pelo salão quase finalizado.
Mas, frente ao público exigente da nova década, era obsoleto, sombrio e inflexível, incapaz de ditar tendência.
Tainá não precisava nem sequer posicionar o restaurante fisicamente perto da concorrência; o marketing boca a boca da comida impecável e do atendimento espetacular varreria o mercado.
Ela garantiu que o sistema de monitoramento não tivesse pontos cegos — desde o salão até cada centímetro das bancadas na cozinha.
A recente crise de segurança alimentar da rede dos Gusmão nascera justamente de uma acusação de objetos bizarros encontrados na comida e do despreparo na hora de abafar o escândalo. Mesmo investindo milhões em controle de danos, a reputação deles estava manchada.
O servidor das câmeras seria mantido sob acesso restrito, gerido diretamente por pessoas de confiança. Diante de qualquer incidente bizarro, a filmagem seria a prova cabal.
Uma acusação externa falsa? Exponha o fraudador e limpe o nome. Um erro operacional da equipe? Investigue-se a origem, puna-se o responsável e solucione o erro na mesma hora.
A estrutura estava irretocável, e a inauguração se aproximava a passos largos.
O plano era voltar para casa logo, mas com Vicente ao lado, Tainá optou por levarem o homem para jantar num bom restaurante europeu; afinal, era essencial valorizar os comandantes da linha de frente.
Porém, mal haviam se acomodado nas cadeiras quando Thiago Torres, com uma expressão enigmática, aproximou-se da mesa...

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