— Você também nunca quis descobrir por que os funcionários testemunharam falsamente de forma orquestrada. Preferiu continuar com sua venda nos olhos — sibilou Tainá.
Ela fez uma pausa, cravando os olhos frios na figura encolhida do irmão e deu o golpe final:
— Entendo que queiram ignorar as evidências e fingir demência. Mas quando decidem assumir o papel de cúmplices diretos na maldade dela, por que acham que eu deveria abaixar a cabeça e engolir em silêncio?
Naquele silêncio cortante que tomou o quarto, Thiago finalmente sentiu o peso da culpa desabar sobre seus ombros. Seria a sua família realmente tão podre quanto ela pintava?
Era duro engolir que o favoritismo que nutriam por Laura não era apenas compensação; ele criara raízes nefastas e havia distorcido a realidade dentro daquela casa.
— Seja como for... nós ainda somos uma família — murmurou ele, com o tom menos convicto. — Não existe rancor impossível de apagar. Tente abaixar a guarda com nossos pais de agora em diante. Eu mesmo vou tentar abrir os olhos do papai e da mamãe.
— Tentar abrir os olhos? Que nobre da sua parte.
Tainá soltou uma risada ríspida, sem nenhum calor.
— Thiago, imagine o seguinte cenário: Laura e eu estamos em perigo de morte imediata. Só há tempo de arrancar uma de nós de dentro do fogo. Sem pestanejar, quem a nossa família salvaria?
— Não seja absurda, isso jamais aconteceria.
— Me responda!
A palavra estalou como um chicote no quarto escuro.
— Por que você travou? Eu facilito e te dou a resposta: Salvariam a Laura.
Thiago não teve coragem de encará-la.
— A porta está ali. Se você não tem estômago para ser imparcial sob o próprio teto, poupe-me dos seus sermões moralistas.
Quem nunca andou no escuro, não deveria ditar como se carrega a luz. Tainá não investiria um milímetro de energia naquela gente.
— Eu sei que você está sem dinheiro... disseram que você tem saído para trabalhar.
Thiago tirou um elegante cartão prateado do bolso e estendeu em direção a ela.
— Tem cem mil reais depositados aqui. Use para suas coisas. Eu falarei com o papai para que sua mesada habitual retorne sem penalidades.
— Não quero o seu dinheiro — Tainá desviou a mão dele com um tapa seco no ar. — Eu tenho capacidade para construir a minha vida sozinha.
As sobrancelhas de Thiago se juntaram em uma expressão de angústia. Ele recuou a mão, guardando o cartão.
A determinação daquela garota era monstruosa. Os pais cegos de um lado, adorando Laura, e ela inquebrável do outro. Estar espremido entre essas duas forças era sufocante.
Mas os outros três irmãos Torres estavam praticamente acorrentados na adoração por Laura.


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